Suíço Yann Gross reúne histórias da Floresta Amazônica e suas periferias

Por DAIGO OLIVA

A entrevista abaixo foi realizada pelo fotógrafo Gabo Morales.

No final do século 19, o escritor anglo-indiano Rudyard Kipling vivia a milhares de quilômetros de sua Índia natal, em Vermont, nordeste dos EUA. A partir de lembranças da infância e dos anos que passou na Índia e, principalmente, de sua imaginação, Kipling criou uma de suas obras mais conhecidas, “O Livro da Selva” (The Jungle Book, em inglês), uma coleção de fábulas na qual as florestas viram cenário para animais antropomórficos se aventurarem em busca da educação moral de seus leitores.

Um valioso intérprete e poeta da vida e dos costumes da Índia para o então vasto Império Britânico, Kipling não via “O Livro da Selva” e seu deliberado apelo ao público infanto-juvenil como uma forma de explicar o país asiático –o mundo exótico que ele descrevia estava, obviamente, longe da realidade.

De sua forma particular, Kipling buscava enriquecer a narrativa sobre um território, para ele, emocional. Assim, ao final de uma peregrinação de quatro anos pela Floresta Amazônica e suas franjas semi-urbanizadas, no Brasil e outros países da América do Sul, o fotógrafo suíço Yann Gross,
33, achou por bem fazer referência à obra do escritor anglo-indiano.

A maquete de seu próprio “Jungle Book”, que reúne histórias de uma Amazônia onde o imaginário exótico da linhagem de Kipling encontra o século 21 de Alec Soth, Rob Hornstra e outros artistas, ganhou a primeira edição do prêmio Luma Rencontres Dummy Book Award, anunciado na última semana durante o Les Rencontres d’Arles, um dos maiores festivais
de fotografia do mundo, realizado em Arles, na França.

Em entrevista realizada por e-mail em dois momentos, no final de 2014 e na última semana, Gross falou sobre seu projeto na Amazônia, com data de lançamento marcada para 2016, e outros trabalhos anteriores.

 

ENTRETEMPOS – Como aconteceu a escolha do título do livro?

YANN GROSS “The Jungle Book” é um projeto para reunir histórias que acontecem na Floresta Amazônica e na suas periferias (e não na Índia,
como era o caso d'”O Livro da Selva”original). A Amazônia é como uma
ilha verde dentro de um continente, mas eu não estou buscando por um mundo intocado e selvagem. Pensei desde o início em sugerir uma visão contemporânea. A palavra “selva” denota um lugar misterioso e inexplorado, mas em “Tristes Trópicos”, o antropólogo Claude Lévi-Strauss escreveu: “
A humanidade instala-se na monocultura; prepara-se para produzir civilização em massa, como a beterraba. Seu trivial só incluirá esse prato”. São palavras terrivelmente verdadeiras para a nova era da globalização. No entanto, estou convencido que existem várias maneiras
de produzir aquela beterraba cultural e quero mostrar quais são essas maneiras: seu formato e gosto dependem dos ingredientes que cada comunidade decide por aceitar ou rejeitar, como tecnologia, religião, linguagem, mercado e negócios.

Que tipo de fenômenos e situações merecem estar no seu livro da selva? Hoje, depois de ter visitado a Amazônia muitas vezes, o que tem buscado para finalizar a sua narrativa?

Esse trabalho deve lidar com questões de identidade e situações inusuais definidas pela modernidade, mas também deve questionar nossas noções de progresso e desenvolvimento. O objetivo é cutucar a imaginação do espectador. O século 20 mudou completamente algumas áreas e o futuro da Floresta Amazônica. A construção de estradas, a busca por ouro e petróleo, contrabando de drogas e madeira, o alargamento da fronteira agrícola e mesmo a chegada de missionários religiosos em áreas remotas da selva, transformaram o cotidiano das comunidades locais, que por sua vez tiveram que se adaptar a novas realidades, cada qual à sua maneira. Então, há várias situações: pode ser um concurso de beleza numa aldeia ou vilarejo, uma fábrica de camisinhas na cidade natal de Chico Mendes, as lendas amazônicas, uma banda de rap formada por índios ou o impacto social que a produção de petróleo provoca em uma comunidade.

Você passou pelas franjas da Floresta Amazônica, encontrando lugares que eram parte da selva, mas que hoje estão devastados. Nos locais que visitou, encontrou algum traço identitário, algum tipo de manifestação comunitária específica dessas fronteiras entre a devastação semi-urbanizada e a mata densa?

Em muitos lugares, muitos habitantes não fazem nem ideia de suas origens, seus ancestrais são originários de vários locais. Assim, eles inventam uma identidade amazônica que usa símbolos da floresta como se fossem indígenas, incluindo elementos que trazem de outras partes do país, como algumas danças, o Carnaval, vestimentas e música popular. É um caldeirão cultural. No Mato Grosso do Sul, no entanto, as coisas me parecem totalmente diferentes. Os povos indígenas e os fazendeiros dos arredores não têm nenhum contato cotidiano, eles vivem como se estivessem em mundos separados. É impressionante, mas há reservas indígenas a dez quilômetros de Dourados, por exemplo, que as pessoas da cidade simplesmente nunca visitaram.

O que a Amazônia significava para você antes de sua primeira visita à região? Você já tinha interesse nesse tema?

Antes de visitar a Amazônia eu trabalhei por quatro meses em um projeto sobre a Mata Atlântica, em 2007. Antes dessa visita, eu ainda tinha uma visão romântica e ingênua sobre a floresta e seus habitantes. Foi minha primeira vez no Brasil. Estava em Pernambuco e aproveitei muito o tempo que passei na floresta, estudando sobre o ambiente, as plantas. Havia alguns poucos povos indígenas, mas eles tinham deixado a floresta havia muito tempo e viviam numa pequena “aldeia” nos arredores de Águas Belas. Culturalmente, o estilo de vida deles era muito similar ao de qualquer nordestino do campo: futebol, cerveja, ginástica e forró. Uma parte importante da cultura deles havia se perdido. As indumentárias indígenas que eles usavam em suas danças eram cópias de vestimentas de nativos da América do Norte e poucas pessoas sabiam falar o idioma original do seu povo, mesmo que na época eles estivessem tentando resgatar esse costume. Dois anos depois, em 2009, fui contratado por uma revista para fotografar um líder indígena de Rondônia que passava por Genebra, na Suíça. Naquela ocasião, ele me disse que sua comunidade estava usando novas tecnologias para dar poder à sua cultura e defender seus costumes tradicionais. Então aproveitei a deixa para me convidar a visitar sua comunidade e ver como eles estavam lidando com questões como a globalização.

Em “Horizonville”, fica claro por que você considera questões de identidade como um dos principais elementos do seu trabalho. O estilo de vida mostrado na obra, ambientada no interior da Suíça, parece emular o cotidiano norte-americano. Quanto dessa “realidade sonhada”, como você descreve, existe exclusivamente dentro do seu recorte da região?

Naquela época eu não tinha dinheiro para viajar e ainda assim sonhava em visitar lugares exóticos. Então decidi pegar uma motocicleta e explorar minha própria região, viajando por três meses pelo vale do Rio Ródano. Normalmente, as pessoas nem param naquela região, que é basicamente uma zona industrial. Então, à primeira vista, você não vai encontrar as situações que eu encontrei no meu trabalho. Mas eu não inventei nada, não pedi, por exemplo, que as pessoas se vestissem de forma diferente do que elas estão acostumadas a fazê-lo. Acredito que essa ambiguidade está no título, “Horizonville”: muita gente acredita que há uma cidade secreta na Suíça onde as pessoas se reúnem para viver o Sonho Americano, o que não é verdade. Reuni essas diferentes situações, lugares e pessoas em um livro apenas para criar essa sensação. E apenas porque eu conhecia a área muito bem, fui bem sucedido em buscar e encontrar as situações que tinha antecipado. Mas nada é falso ou inventado, todas as pessoas e lugares existem exatamente como as mostro.

Seu trabalho “Kitintale” desafia os pré-conceitos sobre um lugar, Uganda, ao trazer para um país, que em outros relatos parece ter uma juventude perdida, miserável, os processos identitários da cultura jovem globalizada, principalmente da cultura do skate. A que ponto seu trabalho na Amazônia confronta esteriótipos?

Vivemos em um mundo complexo e tento contar histórias fora do padrão. A mídia geralmente não conta histórias complexas. Não diria que eles não as entendem, mas preferem contar histórias simples. O resultado é que acabamos tendo uma visão estereotipada das coisas porque a maioria de nós vê o mundo pelo prisma da mídia. Ou você é um milionário disposto a conhecer o planeta inteiro, ou a imprensa provém a forma como percebemos o mundo. Na instalação “Radio Amazonie” [um derivado de “The Jungle Book” produzido para o Festival de Arts Vivants de Nyon, na Suíça, realizado em 2014], brinquei com os esteriótipos da selva, e esperava que as pessoas experimentassem o trabalho de uma forma ingênua. Apenas ao final do percurso as pessoas deveriam notar que o que elas haviam acabado de ver era um teatro feito para turistas que anseiam mais pelo exótico do que pelo que realmente existe.

Quando “The Jungle Book” deve ser publicado?

O livro será publicado em 2016 durante o Les Rencontres d’Arles, provavelmente junto com uma exibição do trabalho. Até o momento, eu não falei com nenhuma editora, mas antes de ganhar o prêmio, estava planejando contatar algumas em agosto. Agora acho que esse prêmio vai me ajudar a publicar o livro que estava sonhando em produzir, porque o maior festival de fotografia do mundo está apoiando o projeto com os recursos necessários para lançá-lo. Eu não recebo nenhum dinheiro, o prêmio precisa ser todo investido no livro. Com ele, vou convidar um escritor e um designer. E quero que o livro seja distribuído na América Latina, então vou buscar uma editora que já tenha uma boa presença na região.

O que significa o começo da jornada de seu trabalho na Amazônia com um prêmio importante antes mesmo de sua publicação?

Não esperava ganhar um prêmio vindo de um júri formado por membros europeus. Para mim, esse é o projeto mais interessante que fiz até hoje. Aprendi muito produzindo-o, mas não estava seguro de que seria capaz de comunicar minhas experiências e conquistar a atenção de um público que, à primeira vista, não está exatamente preocupado com esse tema. Eu vou trabalhar mais para fazer com que o trabalho seja visto por um público ainda mais vasto. Acho essencial que as pessoas saibam mais sobre a Amazônia, e acho que minha humilde contribuição vai suscitar algum debate sobre o assunto.

Curta o Entretempos no Facebook clicando aqui.