Mesmo na era digital, fotografia ainda é válida para tratar do real, diz crítico

Por DAIGO OLIVA

O texto abaixo foi publicado na “Ilustrada” por Francisco Quinteiro Pires.

David Levi Strauss é um otimista. Embora corra o risco de ser chamado de arcaico, o crítico americano defende uma antiga crença sobre a fotografia em seu livro “Words Not Spent Today Buy Smaller Images Tomorrow”. Para ele, as imagens permanecem na era digital como instrumento de evidência e conscientização sobre a realidade.

Na obra, coleção de “ensaios sobre o presente e o futuro da fotografia”, Strauss analisa o poder político de fotos documentais e artísticas no momento em que a pós-fotografia propõe novo entendimento sobre o uso da imagem.

O ensaísta britânico John Berger elogiou os escritos de Strauss, professor da School of Visual Arts, em Nova York, e um dos críticos de fotografia mais prestigiados dos EUA, por priorizarem “o que tem sido esquecido, o que é sistematicamente censurado e o que nós precisamos lembrar amanhã”.

Nos ensaios, o norte-americano alerta para os efeitos de uma produção crescente e uma distribuição mais ampla em plataformas como Flickr, Snapchat, Instagram, Facebook e WhatsApp. Segundo o Yahoo, 880 bilhões de fotos foram produzidas em 2014.

“Massacre de My Lai”, obra fotográfica do americano John Wood, realizada em 1969

“Podemos produzir, guardar, manipular e selecionar fotografias com uma rapidez inédita, mas não conseguimos decifrá-las. Esse é um processo que exige mais tempo do que aquele imposto pela economia de mercado”, diz ele.

“Nós examinamos as imagens com menos frequência e menos cuidado”. De acordo com o crítico, uma observação descuidada leva à perda de autonomia política. “As fotografias perdem significado e viram informação, um elemento que precisa ser apenas administrado.” Ao contrário da escritora Susan Sontag e dos críticos pós-modernos, Strauss considera as fotografias uma oportunidade legítima para lidar com o mundo real e o aparente.

“Muitos têm tratado o ponto de vista dos pós-modernos como uma verdade inquestionável. Mas com o 11/9, que abalou as teorias persistentes sobre os significados das imagens, o nosso pensamento pôde tomar um rumo novo.”

ESCOLHA HUMANA

“Mais uma vez reconhecemos e confrontamos a nossa atração irracional e persistente pelas fotografias, capazes de ser um termômetro confiável das aspirações que orientam um sistema político e social.”

Ao argumentar a favor dessa opinião, Strauss analisa os trabalhos de artistas (Chris Marker, Frederick Sommer, Carolee Schneemann, Jenny Holzer, Larry Clark), de fotojornalistas (Susan Meiselas, Kevin Carter, James Natchwey) e de fotógrafos de rua (Helen Levitt, Daido Moriyama).

Haveria entre eles um elemento comum: “O testemunho de um escolha humana sendo realizada em uma certa circunstância”. Tal noção, diz Strauss, “é o que faz o exame das fotografias importante para qualquer discussão sobre a liberdade humana”. Leia abaixo trechos da entrevista de Strauss à Folha.


O fotojornalismo tem sido criticado sobre seu suposto esgotamento como retrato de realidades desoladoras. Concorda?

Não. A percepção inicial da [crítica de arte] Susan Sontag era de que, à medida que o número de imagens se ampliasse, a influência delas diminuiria.
E isso aconteceria sobretudo com as fotografias de conflitos e sofrimento. A nossa capacidade de reação seria menor diante de uma produção crescente. Sontag mudou esse ponto de vista em seu último livro [“Diante da Dor dos Outros”, 2003, Companhia das Letras] e eu concordo com essa mudança. Os fotojornalistas ainda são capazes de ser influentes, como é o caso de James Nachtwey. A fotografia tem experimentado mudanças tecnológicas fundamentais, mas não se alterou a necessidade básica por imagens icônicas.

Ícone é uma palavra com viés sagrado e doutrinador. As imagens icônicas não seriam ameaças a visões mais democráticas das experiências humanas?

A capacidade de responder ou de pelo menos acompanhar essas transformações vai depender da nossa vontade de encontrar novas maneiras de analisar e compreender o fluxo incessante de imagens. Por ser tão grande, o volume de fotos sendo armazenadas prevaleceu sobre o poder do indivíduo para resgatá-las e usufruí-las.

Quais são os efeitos da produção e do armazenamento crescentes de fotografias em câmeras e smartphones?

Nós podemos tirar, guardar, manipular e selecionar as imagens com uma rapidez inédita, mas não conseguimos mais decifrá-las. Observamos as fotografias com menos frequência e menos cuidado. As fotografias perdem significado e viram informação, um elemento que precisa ser apenas administrado. Nós precisamos desacelerar a nossa relação com as fotografias, mesmo sabendo que o ciclo mercadológico só reduz a sua duração.

Em seu livro, o senhor constata que os seus alunos tratam como verdade inquestionável a opinião de que fotos podem banalizar o sofrimento. Como é possível discutir o papel da fotografia em um cenário de descrença e cinismo?

Percebi que os alunos, quando querem escrever sobre arte, têm dificuldade de observar obras sem a influência prévia de uma teoria. A interpretação vem antes da percepção. Muitos tratam o ponto de vista dos pós-modernos como uma verdade inquestionável, e não uma resposta que pode ser prematura ou ultrapassada. Mas com o 11 de Setembro, que abalou as teorias persistentes sobre os efeitos e os significados das imagens, o nosso pensamento pôde tomar um rumo novo. Mais uma vez reconhecemos e confrontamos a nossa atração irracional e persistente pelas imagens, capazes de ser um termômetro confiável das aspirações que orientam um sistema político e social.

WORDS NOT SPENT TODAY
BUY SMALLER IMAGES TOMORROW

AUTOR David Levi Strauss
EDITORA Aperture
QUANTO US$ 19 (192 págs.)

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