No Brasil para workshops com jovens detentos, francês exibe vidas na prisão

Por DAIGO OLIVA

Sempre em preto e branco, Klavdij Sluban, 42, percorre centros de detenção para jovens de duas maneiras. Primeiro, o francês de origem eslovena registra o cotidiano dos detentos e, mesmo nesse ambiente conturbado, produz imagens que remetem a momentos de silêncio. “A tensão nas celas é sempre máxima, especialmente quando tudo está quieto.” Depois, o artista
faz com que essas passagens pelas cadeias sejam também uma oportunidade para compartilhar a fotografia com os jovens por meio de workshops.

Nesta quinta (6), Sluban realiza palestra sobre seu trabalho na Biblioteca Mário de Andrade e inaugura, no mesmo local, a exposição “Entre Parênteses, Jovens na Prisão”, que reúne 25 fotografias realizadas entre 1995 e 2005 em cadeias para jovens em França, Rússia e países do Leste Europeu.

Com a ajuda de uma intérprete, o artista vem realizando oficinas com jovens da Fundação Casa, em São Paulo. A primeira experiência, na unidade Governador Mário Covas, aconteceu na última semana, e a segunda ocorrerá entre os dias 10 e 13/8. A partir dessas atividades será feita uma mostra com fotos produzidas pelos detentos no próximo dia 27, no Centro Cultural da Juventude. Os garotos que participaram terão autorização especial para comparecer à abertura. Por isso, o evento será realizado pela manhã.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista, por e-mail, com o fotógrafo.

Folha – Como foi a sua experiência nos centros de detenção brasileiros para jovens durante esta primeira semana?

Klavdij Sluban  Está sendo muito diferente. Sei de problemas específicos de jovens no Brasil, mas que país não tem problemas específicos com adolescentes? Algo particular aqui é a limitação de 60 jovens detentos em cada instituição [na Mário Covas, segundo a assessoria de imprensa da Fundação Casa, a lotação é de 64 pessoas, mas este número não é igual para todas as unidades, que chegam a receber cem detentos]. A palavra “prisão” foi banida do vocabulário. Eles preferem chamá-las de centros educacionais. Isto mostra muito. Na França, por exemplo, a idade mínima para ser preso é 13 anos [no Brasil, a idade mínima é 12 anos]. Isso quer dizer que há crianças de 13 anos presas durante 24 horas caso se recusem a participar das atividades. Como é uma primeira visita ao Brasil, provavelmente me levaram a uma instituição cinco estrelas. Mas ao menos há uma instituição cinco estrelas. Em outros países, as condições eram terríveis. Um exemplo muito ruim é a instituição St. Patrick, na Irlanda, uma prisão do século 19 construída pelos ingleses, com celas escuras e quase sem atividades.
Na Mário Covas, cada jovem tem diferentes orientadores. Os adultos, dentro da instituição, não vestem uniformes, eles usam roupas comuns. Os seguranças uniformizados estão em posições estratégicas, mas não interferem no dia a dia dos garotos, que estão ocupados o tempo todo. Não pense que estou dizendo isso porque estou no Brasil e quero agradar a administração dessas instituições. O fato é que estou recebendo total liberdade, e os garotos são livres para fotografar o que bem entenderem.

O que você ensina nas oficinas?

Não me apresento como professor, mas como fotógrafo. Estou aqui para fazer fotos dentro da instituição. Ao mesmo tempo, ofereço aos garotos uma maneira de compartilhar minha paixão. Minha única condição é que a atividade seja voluntária. Eu dou a cada um deles uma câmera, mostro como elas funcionam e, uma vez que eles possa manejá-las, digo o que sei sobre técnica. O resto é intuição, percepção pessoal. Eles, definitivamente, pensam que sou… Se não louco, ao menos um cara estranho. Mas nós apenas saímos e fazemos fotos. No dia seguinte, levo as imagens que tiramos, e discutimos o que foi feito. Eles colocam palavras nas fotos que fizeram. Então explico que aquilo que eles queriam mostrar e o que saiu nas imagens nem sempre correspondem. Tentamos entender por quê. Saímos de novo, tiramos fotos juntos. No dia seguinte, eles observam o que fizeram de diferente, e assim vai, dia após dia. Cada um deles vai mais a fundo com a sua própria percepção de seu espaço de confinamento. Eu os ajudo a expressar com fotografias. O que não faz com que eles pensem que eu sou menos louco porque digo que uma foto borrada, na qual não se pode ver nada, pode expressar seus sentimentos.

Você fotografa prisões há 20 anos. Como se interessou por esse universo? Que histórias descobriu durante todos esses anos?

Eu dou forma a um momento que poderia desaparecer para sempre sem a minha câmera. Esta é a razão pela qual estou fotografando em prisões: é uma questão de tempo e espaço. Os países que fotografo também são países-prisões. As pessoas não podem se movimentar livremente. Mesmo nos dias de hoje, com a tão chamada democracia. Prisões são sínteses do tempo e do espaço. A tensão nas celas é sempre máxima, especialmente quando tudo está quieto. Fotografar durante 20 anos em prisões me mostrou que, independente da instituição, o desespero de cada garoto é o mesmo.

A redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos, vem sendo muito discutida no Brasil. Qual é a sua opinião?

Um jovem que vai para a prisão fica marcado para sempre. Tudo deve ser feito para prevenir isso, não importa o que o garoto tenha feito. Quanto pior for o ato, maior é a atenção que ele precisa.

Você nunca pergunta as razões que levaram um jovem para a prisão. Por quê? Que tipo de relacionamento você mantém com os detentos? Não tem vontade de saber mais sobre as histórias deles?

Os jovens com quem faço as oficinas são alunos de fotografia. Eles me contam suas histórias pelas fotos. Isto explica porque suas imagens são tão fortes.

Você diz que, desde a sua primeira mostra, teve ajuda de Henri Cartier-Bresson, Marc Riboud e William Klein –gigantes da fotografia. Como esse contato aconteceu? Você era muito jovem quando isso se sucedeu. Como eles conheceram o seu trabalho? 

Quando eu vi a qualidade das fotos feitas pelos garotos, mostrei o resultado a outros jovens –em suas mentes– fotógrafos. Eles aceitaram imediatamente. Henri apareceu várias vezes durante sete anos. Ele veio como um ser humano preocupado com as percepções desses jovens sobre seus ambientes. A discussão foi de homem para homem, muito vívida. Henri estava os ensinando a como escapar da prisão, o que ele fez durante a Segunda Guerra, depois de várias tentativas. A administração da prisão me perguntou se eu poderia me concentrar apenas em fotografia. Henri disse: “Fotografia é vida”.

Sua formação acadêmica é literatura. Como isso muda sua percepção sobre a fotografia? Se pudesse escolher um escritor para representar seu trabalho, qual seria?

Eu leio poetas que escrevem prosa. Preciso e conciso. Isto é o que tento fazer com a fotografia: encontrar um ponto de balanço entre o caos do mundo e minha percepção subjetiva pessoal.

Embora seus assuntos estejam relacionados com crime e violência, suas imagens parecem captar momentos calmos neste universo sombrio. O que você procura registrar quando está fotografando?

Meu tema não tem a ver com crime e violência. Lido com punições. Pelas minhas fotos pergunto: de quem a nossa sociedade está tentando se livrar?

ENTRE PARÊNTESES, JOVENS NA PRISÃO
QUANDO
abertura nesta quinta, às 19h30, de seg. a sex,
das 8h30 às 20h30, sáb., das 10h às 17h; até 3/10
ONDE 
Biblioteca Mário de Andrade, r. da Consolação, 94, tel. (11) 3775-0002
QUANTO grátis

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