‘Religare’, de Rafael Adorján

Por DAIGO OLIVA

‘Religare’, de Rafael Adorján (Pingado-Prés) – O que mais me fascina na fotografia é a complexidade para transformar sensações em algo concreto. Trata-se de um suporte hiper conectado ao registro da realidade e, por isso, faz com que trabalhos sobre experiências sensoriais ou estados de ânimo se tornem um jogo perigoso. Enquanto aqueles que se identificam com o sentimento retratado pelo fotógrafo se emocionam –mesmo quando as fotografias são abstratas ou pouco reconhecíveis–, os que nunca passaram por situações parecidas com as que o artista pretende comunicar ficam à deriva, como se estivessem diante de uma série de imagens anódinas. É com essa dualidade que o carioca Rafael Adorján tem de lidar em “Religare”, fotolivro publicado pela Pingado-Prés. Em registros oníricos, com forte presença da natureza, o fotógrafo exibe sua relação com a doutrina do Santo Daime, as experiências com a ayahuasca e a vivência na comunidade do Matutu. Todo
o projeto do livro é coerente, desde os relevos da capa –que remetem tanto às folhas do chá quanto às marcações no chão de terra– até a sua paleta de cores. Um outro aspecto louvável é a opção por não fotografar os membros
da comunidade após ingerirem a ayahuasca nem suas eventuais reações alucinógenas, sempre caricatas, sempre espetaculosas, sempre um caminho direto e fácil para o estereótipo. Rafael escolheu apresentar elementos da doutrina, como imagens do fundador do Santo Daime, e momentos de contemplação –de conexão total com o ambiente. É bonito, mas depende da boa vontade do leitor, que precisa comprar a calmaria proposta pelo autor. Eis um debate com os dois pés na subjetividade. Como objeto, o fotolivro se realiza, porque sua concepção se completa. Como obra, para mim, não bateu.

Avaliação: bom 

Haikai: em críticas curtas, o blog comenta fotolivros lançados neste ano.

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