Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Sebastião Salgado atribui culpa a EUA e Europa por atual crise dos refugiados

Por DAIGO OLIVA

Tião, como é chamado pelos amigos, não toma café. Ainda assim, motivado pelo projeto ambiental que mantém com a marca italiana de café Illy, resolveu fotografar o universo em torno do grão. Mais importante fotógrafo brasileiro, Sebastião Salgado, 71, viajou por Etiópia, China, Costa Rica, Colômbia, Brasil e muitos outros países a fim de registrar plantações e trabalhadores, esforço que resultou no livro “Perfume de Sonho”, que ele lança agora pela Paisagem.

Mas as questões sociais e as tantas tragédias que documentou não foram deixadas para trás. Neste ano, Sebastião retornou aos arquivos de 1991 para resgatar o material produzido sobre o trabalhadores que lutaram para apagar o fogo dos poços de petróleo queimados a mando do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein. A recuperação de imagens nunca publicadas resultará em um novo livro, a ser lançado em junho do ano que vem pela editora Taschen.

Antes de voltar a Paris, onde vive, Sebastião Salgado conversou com a Folha, por telefone, sobre a crise dos refugiados, questão abordada em “Êxodos” (2000), a atual situação do Brasil e “O Sal da Terra”, documentário dirigido por Juliano Salgado, seu filho, em parceria com o cineasta alemão Wim Wenders. A obra foi finalista do Oscar neste ano. Leia a seguir a entrevista.

Folha – Após lançar “Genesis”, o senhor publica um livro sobre o café, obra que também discorre sobre a relação entre o homem e a terra. Abandonou a temática das tragédias?

Sebastião Salgado – A vida da gente é feita de fases. São momentos em que você tem uma grande conexão de pensamentos com aquilo que está vivendo. Trabalho em um grande projeto ambiental no Brasil, então a minha ligação com o tema é muito forte. Estou fazendo um outro trabalho, sobre a Amazônia, sobre a problemática indígena, uma problemática social, mas ligada ao meio ambiente. Claro que trouxe essa aproximação para um lugar onde me sinto confortável psicologicamente para trabalhar. É o meu mundo hoje. O livro do café é nesse sentido. A gente começou um projeto ambiental com a Illy no Vale do Rio Doce, e também um pouco em São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, no qual fizemos um movimento de criação de pequenos viveiros parar tentar produzir o café plantado à sombra [modo de produção mais sustentável] no Brasil. Também criamos cartilhas para tentar fazer com que as propriedades rurais que trabalham com café respeitem a lei de 20% para reservas permanentes. Daí veio a ideia do livro. O café é a minha vida, apesar de eu não tomar café. Meu pai veio para a minha região trazendo café. Quando menino, eu tinha uma máquina de beneficiar café, que preparava para exportação. Depois virei economista, e a parte teórica da minha tese que eu ia fazer sobre o doutoramento era sobre oferta e demanda de café no mundo. O café foi como uma janela que se abriu para mim.

Quando “Perfume de Sonho” começou?

Foi antes do “Genesis”. Comecei muito devagarinho e, depois, durante o “Genesis”, utilizava um pouquinho do tempo para fazer o [projeto do] café.

O senhor volta a fazer parceria com uma empresa nesta nova obra. O caminho para viabilizar grandes projetos é esse?

É um dos caminhos. No caso da Vale com o “Genesis”, trata-se de uma empresa que a gente conhece desde o início do nosso projeto ambiental, é o nosso maior parceiro. Olha, você não pode negar, nós vivemos num mundo em que as empresas são a base da nossa sociedade, tudo o que consumimos vêm das empresas, então tem que haver um respeito em relação a elas. Existe uma tendência de vilipendiar, mas nós mesmos somos as empresas. Quando a gente tem um pouquinho de dinheiro, o banco logo propõe a compra de ações aqui, ações ali. Acaba que todo mundo é proprietário também. Então pode ser um caminho. Foi o caso desses projetos, mas o trabalho novo não é assim.

Sobre o que será esse próximo trabalho?

Trabalhei em 1991 naqueles poços de petróleo do Kuwait que Saddam Hussein mandou colocar fogo. Foi a maior catástrofe ambiental do planeta. Foram emitidos ali, queimados ou jogados no terreno, mais de 1 bilhão de barris de petróleo. Fiz um trabalho grande, mas o material usado no nosso livro “Trabalhadores” entrou quase que marginalmente. Neste ano, reeditei as folhas de contato, e o resultado será um livro excepcional de cem fotografias que sairá no meio do ano que vem, provavelmente em junho. O lançamento vai ocorrer nos 25 anos da primeira publicação dessas imagens no “New York Times”. Assim como “Genesis”, será um livro caro, grande, e outro menor, de tamanho normal. Aí não tem empresa, não tem nada. Somos nós e a editora. Fotografei empresas americanas e canadenses que estavam lutando contra o fogo, mas o livro é uma história humana. Os verdadeiros heróis da Guerra do Golfo foram as pessoas que apagaram o fogo dos poços de petróleo. O que conhecemos desse material são sete ou oito fotografias, não muito mais do que isso. Tenho retratos de trabalhadores que são fora do comum.

A questão dos refugiados, abordada em “Êxodos”, voltou com força. Como olha o assunto a partir do que já testemunhou?

É um drama sério. Hoje fala-se muito sobre a questão porque está chegando na porta dos países que detém a informação, que detém grande concentração financeira do mundo, que é o “berço” da nossa sofisticada civilização. Mas, olhe bem, o problema é grave há dezenas de anos. Como essas pessoas estão chegando à Europa, parece que a história é nova, mas não é nova, não. É velha, é a história da globalização, da reorganização da família humana, da concentração em centros urbanos, das geopolíticas. Quando eu conheci o Iraque, era um país rico, onde as pessoas trabalhavam, tinham aposentadoria, residências e viviam em paz. Um país imaginou que lá havia armas de destruição em massa, atacou o lugar e o trouxe para a idade da pedra.
No Iraque hoje ninguém tem casa, bomba explode todos os dias, é um país fisicamente destruído. Para onde você quer que esse povo vá? Olha o que aconteceu na Líbia: era uma estabilidade, de uma ditadura, mas os líbios tinham casa, escola, viviam de uma maneira razoável. Tomou-se a decisão de botar o [ex-ditador líbio] Gadaffi para fora. Bombardeios, tropas francesas e britânicas entraram com os rebeldes, mas eles não tinham ideia da casa de marimbondo em que estavam mexendo. A ponto de ninguém assumir o controle daquilo, nem os líbios, virou um negócio terrível. De onde saem milhares de refugiados que hoje atravessam em direção à Itália? Você joga com a história dos outros e depois sofre com as consequências.

Isso dá margem para defender a manutenção de ditaduras.

Olha, a intervenção no Iraque não foi para acabar com a ditadura. Foi por petróleo. Na Líbia também. Eu não sou a favor de ditadura nenhuma, hein? Mas acho que esse tipo de intervenção tem que ser muito bem pensada, muito bem calculada, porque as consequências podem ser brutais. Olhe as centenas de milhares de pessoas que estão sofrendo essa violência brutal. Os processos não podem ser violentos de nenhum dos lados, têm de ser negociados. Você não pode aceitar que a violência seja impressa numa realidade histórica qualquer, de cima para baixo. Você destrói tudo.

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O senhor está retornando a Paris, onde vive desde o fim da década de 1960. O que achou da situação do Brasil neste momento?

Eu fui economista, e tudo na economia é expectativa. O Brasil começou uma espécie de negação a todos os níveis de um sistema. Começou na negação da Copa do Mundo, negação das autoridades, negação de todo o poder constituído. É um estado de espírito que entrou no Brasil e que, como todo estado de espírito, tem direções e momentos. É um país jovem onde está se contestando tudo, onde o nível de corrupção é uma coisa avassaladora e que não é uma novidade. Mas, pela primeira vez, a classe dirigente corruptora está na cadeia, isso é uma conquista colossal. Eu não estou falando nada de partidos, nem que um é bom e outro é ruim, estou falando de um momento fabuloso na história do país. A expectativa é que o Brasil vai voltar, é um país de uma potencialidade sem limites, com uma população jovem, grande, com mercado interno garantido, com sistema industrial e agrário. É uma questão de expectativa. O Brasil está passando por uma fase temporária, mas é uma fase interessante, em que você está contestando tudo nessa sociedade.

Qual é a sua expectativa?

Você não consegue passar de uma etapa a outra sem viver intensamente a sua história. A partir daqui vamos chegar a um punhado de aprendizados, e o país vai evoluir de uma outra maneira. Estou mais seguro do que nunca. Por exemplo, se você pegar na campanha do ano passado a quantidade de doações de empresas que ia para as campanhas de Dilma, Aécio, Marina… Nenhum brasileiro pode considerar uma coisa daquela razoável. Você investe centenas de milhões numa campanha política. Onde é que você imagina que vai tirar o lucro? Aquilo ali é uma forma indireta de corrupção. Então o Senado vetou as doações de empresas privadas a campanhas, o Câmara dos Deputados abriu a lei outra vez e o Supremo fechou de novo. Pelo menos nós temos um resíduo moral neste país. Acho que as coisas vão se acertar.

Ficou decepcionado quando “O Sal da Terra” não venceu o Oscar?

Não, de forma alguma. “O Sal da Terra” ganhou muita coisa, prêmio especial [do júri da mostra Um Certo Olhar] em Cannes, o César. O Oscar é um prêmio americano, feito para americanos, com júri praticamente todo de americanos. O grande prêmio do documentário foi ser indicado entre os cinco finalistas.

Seu filho dirigiu o documentário sobre a sua vida. Você se sentiria confortável se outra pessoa, e não ele, tivesse feito o filme?

Acho que não, porque eu não ia dedicar todo esse tempo que dediquei a ele e ao Wim. É uma ocupação do seu tempo num momento muito pesado da nossa vida, da Lélia, da nossa equipe. Você só faz isso para o seu filho.

PERFUME DE SONHO
AUTOR
Sebastião Salgado
EDITORA Paisagem
QUANTO R$ 199,90 (317 págs.)

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