Nova edição da ‘ZUM’ traz entrevista de Lucien Hervé a Hans Ulrich Obrist

Por DAIGO OLIVA
Secretariado de Chandigarh, na Índia, projeto de Le Cobusier. Foto: Lucien Hervé

Na próxima sexta-feira (30), o Instituto Moreira Salles lança a nona edição da revista de fotografia “ZUM”. Em evento a ser realizado na livraria Martins Fontes, na avenida Paulista, a fotógrafa Lucia Mindlin Loeb e o professor da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) Agnaldo Farias farão debate sobre como representar a cidade por meio da fotografia.

A discussão sobre arte e urbanismo partirá do trabalho “Avenida Celso Garcia” —um dos destaques deste novo número da publicação—, no qual Loeb registrou a passagem na zona norte de São Paulo em momentos diferentes (2004 e 2014). A arquitetura também está presente em entrevista concedida por Lucien Hervé (1910-2007) ao curador Hans Ulrich Obrist.

O Entretempos adianta trechos da conversa, realizada em 2002 e inédita em português. Enquanto o fotógrafo é um dos maiores divulgadores da obra de Le Corbusier, o suíço é autor de “Uma Breve História da Curadoria” (BEĨ editora) e “Entrevistas” (Cobogó), nos quais dialoga com curadores e artistas.

A “ZUM” também trará homenagem aos 20 anos da morte do fotógrafo americano George Love, um perfil da mexicana Graciela Iturbide, feito pela jornalista Dorrit Harazim, as fotos do artista chinês Ai Weiwei nas redes sociais e artigo do escritor Saul Bellow sobre o desconforto de ser fotografado.

Hans Ulrich Obrist – Numa entrevista bem conhecida, você disse: “Tornei-me fotógrafo com a ajuda de uma tesoura!”. Pode me dizer mais sobre essa sua frase famosa?

Lucien Hervé – Eu disse isso no meu primeiro encontro com Le Corbusier, sobre o qual você me perguntou há pouco. Um dia, ele me recebeu em seu escritório e ficamos um bom tempo conversando. Ele me fez um monte de perguntas. Tudo caminhou bem desde o primeiro momento. Ele marcou o encontro para as nove, e às nove em ponto eu estava lá. A primeira coisa que me disse foi: “Gosto de gente pontual”. À uma e meia da tarde contei a ele sobre minha paixão pela pintura. Na realidade, comecei a pintar quando estava preso. Ainda conversávamos, quando percebemos que um bocado de tempo havia se passado e então ele me convidou para almoçar. A essa altura ele havia descoberto que, para ganhar a vida, eu era também fotógrafo, e por isso perguntou: “Mas como você se tornou fotógrafo?”. Até aquele momento, ele achava que eu era pintor. E foi nessa ocasião que a resposta mais simples me pareceu ser: “Com a ajuda de uma tesoura”.

Essa resposta já era uma referência à prática da colagem, à qual em seguida você se dedicou por tanto tempo?

Não me referia à colagem, uma prática que amo, mas que não tinha nada a ver com o assunto. Falava de uma liberdade e de um extremo rigor na construção que estão presentes em todas as minhas imagens. A questão é que, ao contrário de muitos fotógrafos daquela época, eu não tinha nenhum respeito pelo filme em si. Para a maioria dos fotógrafos, o filme é quase sagrado; o que é exposto nele é definitivo. Eu, contudo –e não apenas porque, para aquela época, era relativamente jovem para ser fotógrafo–, achava que era preciso ser livre em tudo, fosse uma imagem, uma obra de arte, uma colagem ou uma fotografia. A colagem que está atrás de você, por exemplo, que é uma obra bem posterior, não é simples do ponto de vista da composição da imagem. Na base desse trabalho há uma questão de complexidade notável. Na minha fotografia, porém, essa abordagem está sempre presente. Para começar, tem aquilo que eu chamo de momento do clique; mas, partindo daí, e com o auxílio de uma tesoura, é possível fazer muitas coisas, cortando a fotografia impressa, para que o essencial se revele. É necessário destacar o essencial e com isso elas se tornam, por assim dizer, tão calculadas como um Mondrian. Numa imagem, as relações de quantidade e direção formam um todo. Toda imagem precisa ser algo construído, o que se obtém mediante a intervenção na foto impressa, com ou sem a ajuda de uma tesoura. E acrescentaria ainda que ela precisa atingir um grau de pureza. É aí que entra a tesoura, porque ela ajuda na obtenção desse resultado. Sempre fui sensível a essa forma de pureza, inclusive quando, logo depois da minha fuga, fiz com que me levassem de volta a Grenoble. Eu morava nas montanhas nessa época, bem no alto, onde a rarefação não é um conceito obscuro: é o que você respira. Disse a mim mesmo que, por mais tenaz que a Gestapo fosse, ela jamais conseguiria me encontrar nas montanhas. Como tinha sido expulso do Partido Comunista, decidi me juntar a uma organização da Resistência que era bem anticomunista. Assim, felizmente meu passado não foi usado contra mim.

Que importância teve o cinema na concepção de imagem pela qual lutou a vida inteira? Naquele período, o cinema estava muito vivo.

Sem dúvida eu tinha um grande amor pelo cinema. Sergei Eisenstein, Vsevolod Pudovkin, os cineastas russos, Georg Wilhelm Pabst, os grandes nomes do expressionismo alemão – era gente que eu amava de verdade!
Não se esqueça de que, não sendo fotógrafo na origem, foi com eles que desenvolvi uma paixão pelas imagens. Além disso – mas esse é um tema a
que voltaremos mais tarde –, essa minha paixão pelas imagens e por determinado modo de construir a fotografia também me ligava automaticamente à Bauhaus, mesmo antes de ela ser divulgada e reconhecida na França. Tenha em mente que os primeiros trabalhos da Bauhaus só foram publicados na França no final da década de 1940, depois da libertação.

ZUM #9
QUANDO
lançamento na sex. (30), às 19h30
ONDE 
Livraria Martins Fontes, av. Paulista, 509, tel. (11) 2167-9900
QUANTO
R$ 52,50 (184 págs.)

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