Em comodato, acervo de Mario Cravo Neto vai para Instituto Moreira Salles

Por DAIGO OLIVA

O texto abaixo foi publicado na edição da “Ilustrada” desta terça-feira (17).

A Bahia se mudou para o Rio. Ao menos durante dez anos, período do contrato de parceria firmado entre os quatro filhos de Mario Cravo Neto e o Instituto Moreira Salles. Após uma negociação que durou quatro anos, todo o acervo do fotógrafo, guardado até então em sua casa, em Salvador, com cerca de 100 mil itens —entre negativos, cromos, publicações de referência, cópias de contato e outros—, foi transferido para a sede carioca da instituição, que irá preservar, digitalizar e documentar a obra do artista.

Morto em 2009, aos 62, Cravo Neto documentou a afro-brasilidade e o sincretismo religioso na Bahia, pano de fundo constante em sua carreira. As imagens registram fragmentos do corpo humano em composições que lembram esculturas, fruto da experiência anterior à fotografia e da influência do pai, o escultor Mario Cravo Jr. O arquivo do artista baiano se somará aos acervos de outros importantes nomes da fotografia que também estão sob os cuidados do IMS, como os de Marc Ferrez, Alice Brill e Thomaz Farkas.

“Deus da Cabeça”, da série “Eterno Agora”, de 1988. Acervo Instituto Mario Cravo Neto/Instituto Moreira Salles

Segundo Sergio Burgi, coordenador de fotografia do instituto, a ideia é “mergulhar na coleção para fazer leituras tanto de conjuntos desconhecidos como de séries estruturantes da obra do artista”, o que gerará, num prazo entre quatro e cinco anos, uma exposição de “grande porte” e, depois, uma publicação em livro. Assim, serão revistos os registros da Bahia, as imagens do período em que viveu em Nova York e também cenas de sua vida familiar. Para Christian Cravo, 41, filho do fotógrafo, o principal trunfo deste arquivo sobre outros é a predominância da produção autoral do baiano.

“Grande parte de acervos é feita de trabalhos comerciais, o que dá menor possibilidade de exploração.” Burgi concorda: “Trata-se de um arquivo de artista. Há muito o que se pensar sobre Mario Cravo Neto em um contexto de estruturação de uma linguagem dos anos 1970 em que a cor é fundamental.”

“É uma leitura não só da obra dele, mas que se associa a outros fotógrafos do período, como Miguel Rio Branco.”  Embora a série “Eterno Agora”, trabalho mais conhecido de Cravo Neto, sejatons monocromática, ele também produziu grande material em cores, caso do lendário fotolivro “Laroyé” e de “Butterflies and Zebras”, mostra exibida em 2013, na Pinacoteca.

Na época, a exposição com curadoria de Diógenes Moura quase naufragou. Uma disputa pelo espólio de Cravo Neto entre os filhos de seu primeiro casamento e os da terceira união por pouco não impediu a mostra. Christian precisou entrar com ação na Justiça para garantir que o evento pudesse ocorrer. O acordo com o IMS sinaliza que os problemas entre os herdeiros cessaram, pois, segundo Burgi, o instituto só fecharia esta negociação com toda a família, e não com parte de quem responde pela obra.

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“Baba Egum”, de “Territórios em Transe”. Acervo Instituto Mario Cravo Neto/Instituto Moreira Salles

PROTECIONISMO
“Você sabe como baiano é protecionista, né?”, pergunta Christian. Entre desarranjos de que os irmãos preferem não falar estão o tipo de gestão aplicada ao arquivo e se o mesmo deveria seguir em Salvador. Procurados, os filhos mais novos, Lukas, 26, e Akira, 24, comemoraram o acordo, mas se recusaram a comentar o que mudou para que se estabelecesse um consenso. A filha mais velha, Lua Diana, vive em Copenhague, na Dinamarca. Ela e Christian defendiam uma gestão mais “profissional”, enquanto os outros queria algo mais “familiar” e que o arquivo não saísse da capital baiana.

“O mundo de hoje é implacável. Tirar um nome do mercado por dez anos pode ser devastador para uma carreira”, defende Christian. “Ficou claro que essa situação não tinha como continuar.” A venda de obras, que serve de sustento para o recém-formado Instituto Mario Cravo Neto, está fora dos termos da parceria, que, segundo as partes, não envolveu dinheiro. Christian diz que negociar o arquivo permanentemente está “fora de cogitação”.

“Sempre vi com maus olhos famílias que vendem acervos que representam suas histórias de vida para instituições que são vistas como frias”, diz ele.
“O IMS, por melhor trabalho que faça, sempre vai carregar aquele peso de ser uma instituição fria, que tem dinheiro de banco por trás.”

Para o coordenador do instituto, a posição de não querer comercializar o arquivo é justa e mostra a preocupação da família com a obra, embora a menção ao IMS seja contraditória. “Interpreto como uma forma de deixar claro, da maneira dele, que neste processo não haverá venda.”

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