MoMA encontra cinco fotos de Claudia Andujar perdidas em acervo de estudo

Por DAIGO OLIVA

Quinze anos antes de encontrar os ianomâmis, Claudia Andujar conheceu uma outra tribo. Na ilha do Bananal, em 1956, a suíça radicada no Brasil começou com os carajás o trabalho de documentação que a tornaria célebre.

Agora, dois retratos destes índios, gênese daquilo que determinaria sua vida como fotógrafa e ativista, foram encontrados num acervo secundário do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, junto a outras três fotos do início de sua carreira. A descoberta ocorre em um momento de celebração para Andujar: o Inhotim acaba de inaugurar um pavilhão permanente dedicado à sua obra e, até o meio deste mês, o Instituto Moreira Salles exibiu uma grande mostra centrada nos trabalhos da fase pré-ianomâmi e ponto de partida para o achado nos Estados Unidos.

Designado para montar uma cronologia para a exposição, o pesquisador Ângelo Manjabosco recorreu a um currículo da fotógrafa para pontuar o período da vida dela entre 1955 e 1974. O documento tinha como objetivo uma bolsa que financiasse o registro dos efeitos da construção de uma represa em Igaratá, cidade no Vale do Paraíba, na década de 1960.

A carta de intenção, escrita em inglês -o que indica que ela buscava aporte estrangeiro-, estava em uma caixa na qual Lew Parrella, ex-editor de fotografia da Abril, guardava recortes de jornal e catálogos de fotógrafos -Andujar trabalhou para títulos da editora.

Parrella, junto a outros dois fotógrafos da revista “Realidade”, George Love e David Drew Zingg, é objeto de pesquisa de Manjabosco em seu mestrado na USP. “Fiquei com o currículo porque percebi que eram dados que não tinham em nenhum lugar”, explica. “Parece-me que ela foi trocando a biografia oficial para falar sempre dos ianomâmis, renegando os trabalhos mais editoriais.” Entre participações em mostras e registros de publicações, o minucioso currículo assinalava a venda de seis fotos para o MoMA: duas em 1959, outras duas no ano seguinte e, por fim, mais duas em 1965.

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A instituição norte-americana, no entanto, registrava em seu catálogo apenas três imagens da artista. Thyago Nogueira, curador da retrospectiva no Instituto Moreira Salles, entrou então em contato com Sarah Meister, uma das curadoras do departamento de fotografia do MoMA.

A primeira consulta, realizada em julho, nada adiantou -nenhum novo registro foi encontrado. Nogueira, no entanto, desconfiava que o currículo era detalhado demais para que Andujar tivesse “errado tão grosseiramente”.

Semanas depois, ele se lembrou de uma lenda em torno da descoberta de 80 imagens de Luigi Ghirri em um depósito do museu. Em 1976, o italiano enviou a John Szarkowski um conjunto de sua produção fotográfica. Hoje considerado um dos pioneiros da fotografia colorida, Ghirri teve o material negado. O artista, porém, assim como o curador, tampouco quis os registros.

“Szarkowski tacou aquilo no que a gente chamaria de depósito, um espaço para guardar tudo que não interessa ao museu, meio que um porão”, relembra o brasileiro. Quando o francês Quentin Bajac assumiu a curadoria de fotografia do MoMA, em 2013, uma de suas primeiras providências foi descobrir o destino das imagens de Luigi Ghirri. Elas estavam no Study Collection (coleção de estudo), um “acervo destinado a trabalhos de pesquisa, mas não necessariamente para exposição”, explica Sarah Meister. “Embora muitas vezes existam tesouros dignos de figurar na coleção permanente.”

A mesma história se passou com o material de Andujar. Em setembro, dois meses após a primeira tentativa, Sarah começou a enviar entusiasmadas mensagens de celular para Nogueira, relatando a descoberta de cinco novas fotografias -sem contar as três já catalogadas na coleção permanente do MoMA, adquiridas entre 1962 e 1966.

Página de currículo de Claudia Andujar; fotógrafa formulou documento para pedir bolsa que custearia projeto de documentação da construção de barragem em Igaratá, cidade no vale do Paraiba

Além de dois retratos de índias carajás, de 1960, quando a fotógrafa retornou à região da tribo por dois meses, a revelação ainda traz registros do começo da carreira: em uma das imagens, uma menina está sentada em uma cadeira, em Ubatuba. Noutra, registra a cabeça de uma boneca envolta com papel celofane, em Nova York. Na última, intitulada “Macumba”, de 1961, enquadra mãos negras segurando uma vela. “Eu não me lembro bem [como aconteceu]”, confessa Andujar. “Foi uma surpresa para mim. Eu havia deixado algumas fotos para amigos que trabalhavam no MoMA.”

AVENTUROSA

Andujar chegou ao Brasil, em 1955, para encontrar sua mãe, que veio ao país para se casar com um imigrante romeno. Decide viver em São Paulo e se torna fotógrafa pouco depois. Antes, morou durante dez anos em Nova York, onde trabalhou como guia turístico na sede da ONU. Neste período, havia começado a pintar telas de expressionismo abstrato e participado de mostras.

Aqui, teve dificuldades para emplacar a carreira. Segundo a artista, ela foi rejeitada pela revista “O Cruzeiro” pois era mulher e fotografava coisas fora do comum. Por isso, resolveu voltar algumas vezes aos EUA para mostrar seu trabalho. Como não conhecia ninguém, passou ir a galerias e museus de “maneira aventurosa”. Foi por meio dessas visitas que conheceu pessoas ligadas à fotografia, que sugeriram se apresentar no MoMA.

Construiu pontes com influentes nomes como Edward Steichen e W. Eugene Smith, além de Grace Mayer, lendária secretária do museu, a quem Andujar deu uma foto. Uma das imagens descobertas tem a marcação “presente de Grace Mayer”, o que indica que a secretária doou ao museu a obra dada a ela.

“Fiquei conhecida nos EUA, mas não quis morar lá”, relembra a fotógrafa. “Quando souberam que eu era bem-vinda em Nova York, minha situação mudou. Não fui vista como uma mulher esquisita.” O esforço foi recompensado e tanto o trabalho fotográfico quanto o ativismo em prol da demarcação de terras ianomâmis são hoje reconhecidos.

Nem a Vermelho, galeria que a representa, nem o MoMA divulgam o valor de obras, mas a Folha apurou que um conjunto de quatro fotos da série “Marcados” gira em torno de US$ 40 mil (cerca de R$ 150 mil), o que faz o museu americano comemorar a descoberta de imagens até então ignoradas em seu acervo. O material ainda revela detalhes deste primeiro capítulo de Andujar e como ela estava imersa na cena nova-iorquina.

“Estamos continuamente revendo a coleção de estudo para avaliar obras que foram colocadas lá por inúmeras razões”, diz Sarah. “Até meados da década de 1960, fotografias eram tão baratas que quase sempre estavam abaixo do limiar que exigiria a aprovação formal do museu.”

Já para Andujar, que divide parte do lucro das vendas de trabalhos com os índios ianomâmis, o importante é “entender o que é o povo brasileiro”. “Comecei a fotografar porque queria conhecer o Brasil. Sempre gostei de viver aqui porque sentia que as pessoas eram mais afetuosas do que o que eu tinha anteriormente. Na Hungria, não, eu gostava de lá. Consegui reconstruir aqui algo da minha infância na Hungria. Aqui eu encontrei um carinho. O Brasil reabriu a minha vida.”

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