‘Moisés’ arremessa leitor no labirinto da mente ao ter de lidar com a perda

Por DAIGO OLIVA

‘Moisés’, de Mariela Sancari (La Fabrica) – Presente em muitas listas de melhores fotolivros de 2015, “Moisés”, de Mariela Sancari, justifica sua fama. Ancorado em um projeto gráfico inteligente, a obra emula o labirinto íntimo da fotógrafa argentina ao imaginar como estaria seu pai se estivesse vivo. A projeção ganha força —e foge da pecha de ser apenas mais um drama familiar— porque a artista não conseguiu ver o corpo do pai morto, o que reflete a sensação incômoda, paranoica, de enxergar em todo lugar a pessoa querida que supostamente se foi. Quase sempre num fundo azul, Sancari retratou diversos homens de 70 anos, idade que Moisés teria caso não tivesse se suicidado. As imagens vão se intercalando em páginas que abrem para lados opostos, que se empilham e se desagrupam em cortes por vezes radicais. O leitor é jogado num liquidificador insano da perda e das falhas da memória, algo que, de alguma forma, em maior ou menor grau, todos nós já sentimos. “Moisés” também pode ser interpretado como um exercício sobre o retrato na fotografia, como ele se relaciona com identidades e o que pode representar. Tudo isso por conta de um design que existe para dar forma a um conceito bem elaborado, que passa longe do exibicionismo gráfico apenas para parecer moderno. Ali, o desenho é eficiente e existe para dar sentido ao trabalho. Uma vez visto, porém, a mecânica do livro perde a graça e a surpresa. Difícil retornar a ele para desfrutar mais do que algumas poucas lidas.

Avaliação: muito bom 

Haikai: em críticas curtas, o blog comenta fotolivros lançados neste ano.

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