Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

 -

Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Documentário sobre Amy Winehouse apreende o ponto em que artistas perdem a dimensão humana

Por DAIGO OLIVA

Uma parte da crítica abaixo foi publicada na capa da “Ilustrada” desta terça-feira (9). Para ler outros textos sobre os concorrentes ao prêmio de melhor documentário no Oscar é só clicar aqui.

***

Uma cena se repete em “Amy”, documentário sobre a cantora, morta tragicamente em 2011, aos 27 anos. Ao sair de casa ou de um pub, dezenas de paparazzi a cercam e a atacam com flashes até que consiga chegar ao carro. Nesses momentos, a tela fica quase toda branca e o rosto da inglesa, cuja voz provocou uma onda de euforia ao lançar o álbum “Back to Black”, resume-se a um clarão.

Este é o maior trunfo do filme mais popular entre os concorrentes a melhor documentário do Oscar deste ano: mostrar quando os artistas perdem a forma humana para serem tratados como funcionários da curiosidade alheia. Mais do que reconstruir a trajetória de Amy Winehouse e de sua família desregulada, o longa escancara a naturalidade com que piadas sobre seus problemas com drogas —álcool, heroína, crack— e bulimia eram feitas em programas da TV britânica.

Como arquitetos de obras prontas, hoje todos condenam a falta de respeito com que a cantora foi tratada, mas, à época, era fácil achar quem torcesse por mais um vexame de Amy nos palcos. Isso não quer dizer que ela se esforçasse para largar a situação. Embora o diretor, Asif Kapadia, trate-a como uma vítima quase o tempo todo, Amy se entregou insanamente ao amor destrutivo de Blake Fielder, com quem compartilhava a paixão pelas drogas, e tinha uma estranha relação com o pai.

Mesmo quando era evidente que Mitch Winehouse explorava a filha, pressionando para que os shows fossem cumpridos —era evidente que ela não tinha como realizá-los—, Amy o mantinha por perto. Na cena mais chocante, Mitch vai ao encontro da filha numa ilha usada como retiro para reabilitação. O detalhe é que ele chega junto a uma equipe de TV que filmará um reality show.

Sem nunca recorrer ao formato tradicional de documentários, em que o entrevistado fala em frente à câmera, Kapadia costura imagens da intimidade de Amy —como vídeos de quando tinha 16 anos e flagras durante a gravação de seu álbum mais conhecido— com registros em programas de televisão. Usa também apresentações da cantora, destacando trechos das letras de suas músicas mais famosas, uma forma de explicar como sua curta produção foi autobiográfica. São essas confissões que demarcam as fases de sua vida. Já a mistura da figura pública da artista com a vida privada de Amy Winehouse foi um dos principais elementos que ajudou a matá-la.

AMY
DIREÇÃO Asif Kapadia
PRODUÇÃO Reino Unido/EUA, 2015, 14 anos
QUANDO disponível na Netflix e no Net Now
AVALIAÇÃO ótimo

***

Curta o Entretempos no Facebook clicando aqui.

Blogs da Folha