Documentário sobre Amy Winehouse apreende o ponto em que artistas perdem a dimensão humana

Uma parte da crítica abaixo foi publicada na capa da “Ilustrada” desta terça-feira (9). Para ler outros textos sobre os concorrentes ao prêmio de melhor documentário no Oscar é só clicar aqui.

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Uma cena se repete em “Amy”, documentário sobre a cantora, morta tragicamente em 2011, aos 27 anos. Ao sair de casa ou de um pub, dezenas de paparazzi a cercam e a atacam com flashes até que consiga chegar ao carro. Nesses momentos, a tela fica quase toda branca e o rosto da inglesa, cuja voz provocou uma onda de euforia ao lançar o álbum “Back to Black”, resume-se a um clarão.

Este é o maior trunfo do filme mais popular entre os concorrentes a melhor documentário do Oscar deste ano: mostrar quando os artistas perdem a forma humana para serem tratados como funcionários da curiosidade alheia. Mais do que reconstruir a trajetória de Amy Winehouse e de sua família desregulada, o longa escancara a naturalidade com que piadas sobre seus problemas com drogas —álcool, heroína, crack— e bulimia eram feitas em programas da TV britânica.

http://mais.uol.com.br/view/15479150

Como arquitetos de obras prontas, hoje todos condenam a falta de respeito com que a cantora foi tratada, mas, à época, era fácil achar quem torcesse por mais um vexame de Amy nos palcos. Isso não quer dizer que ela se esforçasse para largar a situação. Embora o diretor, Asif Kapadia, trate-a como uma vítima quase o tempo todo, Amy se entregou insanamente ao amor destrutivo de Blake Fielder, com quem compartilhava a paixão pelas drogas, e tinha uma estranha relação com o pai.

Mesmo quando era evidente que Mitch Winehouse explorava a filha, pressionando para que os shows fossem cumpridos —era evidente que ela não tinha como realizá-los—, Amy o mantinha por perto. Na cena mais chocante, Mitch vai ao encontro da filha numa ilha usada como retiro para reabilitação. O detalhe é que ele chega junto a uma equipe de TV que filmará um reality show.

Sem nunca recorrer ao formato tradicional de documentários, em que o entrevistado fala em frente à câmera, Kapadia costura imagens da intimidade de Amy —como vídeos de quando tinha 16 anos e flagras durante a gravação de seu álbum mais conhecido— com registros em programas de televisão. Usa também apresentações da cantora, destacando trechos das letras de suas músicas mais famosas, uma forma de explicar como sua curta produção foi autobiográfica. São essas confissões que demarcam as fases de sua vida. Já a mistura da figura pública da artista com a vida privada de Amy Winehouse foi um dos principais elementos que ajudou a matá-la.

AMY
DIREÇÃO Asif Kapadia
PRODUÇÃO Reino Unido/EUA, 2015, 14 anos
QUANDO disponível na Netflix e no Net Now
AVALIAÇÃO ótimo

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Comentários

  1. Eu assisti e realmente é revoltando a forma como o pai e o marido a tratavam. Foi uma artista maravilhosa, mas um ser humano com muitas fraquezas que infelizmente foram usadas contra ela para enriquecerem mais e mais…

  2. Muito bom documentário. Discordo, no entanto, do autor deste artigo sobre Amy manter seu pai por perto. A meu ver, e pelo que se vê no vídeo, ele se aproxima quando ela começa a ter sucesso financeiro… o próprio articulista contradiz este ponto quando menciona a ida do pai à ilha onde ela deveria descansar levando uma equipe de TV. Pobre garota que teve o azar de ter um pai, um marido e um empresário que trocaram sua vida pelo seu dinheiro… e, pra piorar, ainda teve uma mãe banana que assistiu de camarote. Sucumbiu à falta de amor.

    1. Caro Reginaldo: antes de o pai de Amy encontrá-la na ilha, ele já a acompanhava em premiações e outros programas. A passagem que cito ocorre quando ele já está reinserido no círculo próximo a ela, certamente após o sucesso financeiro. Obrigado pela mensagem.

  3. Magnífico e triste documentário. É duro ver uma menina sensível e genial não ter discernimento suficiente e se deixar explorar por todos à sua volta. Para mim, uma das maiores cantoras e compositoras de todos os tempos. Deixou saudades.

  4. Este documentário foi feito com a anuência da família dela ou é uma obra independente? Posso estar enganado, mas acredito que aqui no Brasil seria impossível um trabalho como esse, pois sucumbiria numa avalanche de processos antes mesmo de ser lançado.

  5. “Amy” foi uma cantora e compositora simplesmente fantástica, não sou nem crítico de música, mas uma boa observação é possível notar que ela canta com alma, tudo muito verdadeiro, e claro com letras dignas, com conteúdo. Documentário triste, pois evidencia o que provocou a morte da “Amy”. E quão é capacidade do ser humano de tirar vantagem da vida aleia e destrui-la. Parabéns aos produtores, um excelente material.

  6. Achei o documentário maravilhoso, e acho que chama atenção a como se banaliza os problemas humanos, Amy pelo que entendi teve uma adolescência complicada e não foi dada a devida atenção. Me pergunto o porque Amy foi banalizada pela mídia, tivemos outros artistas Homens com problemas semelhantes e não foram tratados do mesmo modo, ou porque tiveram uma família melhor ou por serem homens? Na época já não gostava das piadas e vendo o documentário quem fez as piadas deviria se envergonhar. Amy pelo que vi foi uma pessoa problemática, com uma família terrível, e com isso se aproximaram pessoas que só tiraram vantagem, que pena uma artista maravilhosa que mais uma vez por um milhão de motivos se perdeu, e não teve força para se achar.

  7. Assisti ontem. Difere do formato usual de documentários (onde vemos narradores dos fatos, neste apenas ouvimos a narrativa, junto com fotos dos fatos). Chocante como nada do que foi sabido na época foi suficiente para mudar o destino dela, e como a ambição do pai e dos empresários do meio musical sucumbiram aos evidentes problemas graves da alma dessa moça, e a imprensa do planeta zombando cruelmente de uma doente terminal. É um soco no estômago.

  8. Um documentário que difere dos usuais, pelo formato da narrativa ( que dispensa a imagem dos depoimentos e valoriza a voz mesclando com fotos dos fatos narrados). O chocante é a constatação de que todos sabiam da tragédia anunciada, e nada fizeram para conte-la, pela razão sucumbida à ganância. Sem contar com a imprensa marrom mais implacável do planeta. Todos foram cruéis com ela e sua alma doente. Para os fans, um presente. Seguido de um soco no fígado.

  9. O documentário pouco me fez sentir além de estar invadindo a privacidade de uma pessoa que sofreu por terem roubado isso dela. Muito pouco falou sobre a artista, sua formação, visão de mundo… Como os tabloides ingleses, pouco acrescentou além da fama de drogada e rebelde, um show de senso comum. Sua proximidade com Tony Bennet poderia se mais destacada, pois era um dos ídolos da cantora, que lamentou profundamente sua morte, além de ser uma dos maiores artistas com quem conviveu. Por fim, Amy teve sua intimidade devastada (tudo que sempre quis evitar) e sua visão artística tocada somente de forma superficial (tudo que sempre quis evitar). Desrespeitoso com Amy, como seria desrespeitoso para qualquer artista de verdade.

  10. Artistas, são pessoas especiais (forjados pelo modo-vivante), que tem a alma á flor da pele. Eles, vêem o mundo, com muita sensibilidade e vivem a vida com muita intensidade.Eles, invariavelmente, usam drogas para amenizar a dor de sua sensibilidade.

    1. Olá, Leo. Discordo do seu ponto. O documentário cria uma narrativa muito clara de como a invasão de privacidade da imprensa intensificou o processo de autodestruição de Amy. Mais do que repetir aquilo que já havia sido falado à exaustão, há aí uma reflexão de como isso se deu e de o que isso provocou. Obrigado pela sua mensagem.

      1. Daigo, mas é justamente essa narrativa que foi intensamente explorada durante os anos que sucederam sua morte. O documentário pode ter dado uma amarração inteligente para uma quantidade enorme de informações que estavam até então desordenadas. Mas o que isso acrescenta? É um documentário sobre a história de uma celebridade, como são tantos outros. Poderia ser sobre Lady Di, Michael Jackson ou Mick Jagger… A identidade do artista nesse tipo de narrativa tem pouco ou nenhum valor.

        A matéria abaixo é de 2011. O título poderia muito bem servir ao documentário de 2015.
        http://www.tribunahoje.com/noticia/10789/entretenimento/2011/11/27/imprensa-ajudou-a-matar-amy-winehouse-diz-vocalista-do-pulp.html

  11. Que voz. Que retrato deprimente do que uma criança sem limites pode se tornar. Era a ídola da minha filha, e infelizmente não está mais entre nós. A mensagem é: Cuidemos das nossas crianças, e tenhamo-las por perto antes que apareça um “Blake” na vida delas.

  12. Um documentario que demostra claramente a necessidade de carinho e precisava de alguem para ajuda-la,principalmente quando ficou muito famosa e esta situação parece que a deixou mais vazia, como que todos aproveitava-se dela e não tinha um amigo ou amiga de verdade para compartilhar seus medos e angustias.

  13. Uma artista extraordinária, verdadeira. Um talento raríssimo, tanto na composição quanto na voz e arranjos que recuperavam beats negros americanos dos anos 40/50. Embora a temática fosse até banal (dores de amores), cantada há muitos séculos, o modo que foi posto e cantado era especial, agradabilíssimo e, apesar do revival, também original. A arte dela é muito maior que o escândalo.

  14. Exceletnte trabalho. Emociona pelos registros que fez de forma muito equilibrada. Muito triste ver como o artista é jogado em uma situação de ícone de forma fulminante sem que as pessoas que a cercam a preparem, e à família, para o que está por vir.
    Esse cuidado de quem é responsável pela carreira de um artista deveria estar em sua formação. Além, é claro, de uma legislação que desse maior proteção à privacidade das pessoas e não permitisse uma exploração sem limite de sua intimidade. É vergonhoso alimentar-mos esse tipó de exploração da mídia.

  15. O documentário, embora muito triste, é maravilhoso! Espetacular! Há tempos eu não gastava 2h e 7 minutos em frente à TV sem parar nem para ir ao toalete. Serei um eterno fã de Amy. Acho que acabou escrevendo o seu nome na história da música. A parte mais comovente, para mim, é quando ela canta com Tony Bennett. Certamente ela realizou um sonho. Meu eterno amor a Amy!

  16. Assisti ao documentário no cinema e me emocionei bastante… Sou fã de Amy e pra mim foi simplesmente chocante ver como as pessoas que podiam salva-la nada fizeram para ajudá-la, não que a própria Amy não tivesse culpa mas é simplesmente lamentável ver como o Mitch queria que ela fizesse shows, mesmo sem ter condições para fazê-lo, a cena dele em Santa Lucia com a equipe de TV é deplorável. Talvez se Amy tivesse uma estrutura familiar melhor poderia ter se recuperado, isso é algo que infelizmente nós jamais saberemos.

  17. Amy e de uma genialidade e tristeza , pois mostra de fato a realidade de uma artista única, sem fronteiras entre sua vida privada e pública. Muito bem produzido, Amy nos coloca frente a frente com a realidade de uma artista maravilhosa , como poucas, como Billie .
    As palavras de Tony Bennet colocam de forma clara o que Amy representou e representa na música.

  18. Tenho 65 anos e fiquei impressionado ao perceber como a história se repete de maneira trágica. Estou me referindo a grande Janis Joplins, assim como Emy, uma das maiores cantoras de todos os tempos que acabou tragicamente derrotada pelas drogas, aos 27 anos, como Emy. Lamentável.

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