Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Opção pela projeção em 70 mm de ‘Os 8 Odiados’ é conservação de uma paixão utópica pelo cinema

Por DAIGO OLIVA

“Carol” e “Os Oito Odiados” são os dois filmes na disputa do Oscar de melhor fotografia realizados com película. Mas, enquanto o longa de Todd Haynes foi feito em 16 mm, este, de Tarantino, foi produzido em 65 mm utilizando lentes Ultra Panavision –a última vez em que o equipamento foi utilizado ocorreu com “A Batalha de um Herói”, há 50 anos. A ideia, ao menos, era que “Os Oito Odiados” fosse exibido com cópias em 70 mm, formato que cria uma faixa larga e estreita na tela, mas, no Brasil, por exemplo, já não há cinemas que comportem este tipo de projeção.

A opção pelo uso de película em vez de equipamentos digitais significa também qualidade muito superior aos usuais formatos de 35 mm, o que se traduz em fidelidade de cor e nitidez. A escolha é, acima de tudo, a conservação de um amor utópico ao cinema. Em sua nona menção ao Oscar, o cinematógrafo Robert Richardson é o maior vencedor entre os indicados. Levou a estatueta pelos trabalhos feitos em “Hugo”, em 2011, “O Aviador”, em 2004, e “JKF”, de Oliver Stone, em 1991.

O sexagenário de longos cabelos brancos, muito parecido com o personagem Gandalf de “O Senhor dos Anéis”, aliás, puxou um interessante debate sobre a disputa em sua categoria. Em entrevista à revista “The Hollywood Reporter”, Richardson afirma que a “onipresença dos efeitos visuais no cinema moderno significa que os cineastas que utilizam técnicas da velha escola já não estão operando em ‘igualdade de condições'”. “Uma grande parte do que os espectadores estão olhando não é realizado pelo diretor de fotografia, mas criado por artistas em um computador.”

Por isso, defende ele, a Academia deveria criar uma nova categoria que distinguisse filmes rodados com métodos tradicionais e aqueles que utilizam efeitos digitais “muitas vezes invisíveis”. Se o que vem à mente é o exemplo do Oscar dado a Claudio Miranda, em 2013, devido ao trabalho em “As Aventuras de Pi”, neste ano é possível destacar, sobretudo, a estética forçadíssima de “Mad Max”.

O curioso é que o próprio cinematógrafo do longa, John Seale, admitiu em entrevistas que sua função durante as filmagens era se preocupar com o registro das cenas, pois cores e texturas –superartificiais– seriam geradas e/ou corrigidas depois, digitalmente. “O Regresso” também pode ir na mesma linha, mas as características da obra do mexicano Emmanuel Lubezki são mais perceptíveis. Talvez a reclamação de Richardson faça sentido e gere alguma mudança no futuro.

Sobre “Os Oito Odiados”, seu trabalho quase artesanal é fabuloso. Já no começo do filme há um contraste muito forte entre as imagens filmadas na neve, com um branco tomando toda a tela, e as cenas internas, em que objetos de tons intensos chamam a atenção. O uso da película valoriza as cores, e os enquadramentos fechados nos rostos dos atores ganham outra atmosfera. É uma pena que não existam cinemas no Brasil com o equipamento necessário para assistir ao filme da maneira como ele foi pensado. Se já é impressionante em corte de 35 mm, imagine então da forma correta?

O bom é ver que todos os concorrentes a melhor fotografia no Oscar deste ano, que será entregue no domingo (28), tem grandes méritos, sem nenhum indicado que entra só para formar a lista. De todos, o meu preferido ainda é “Carol”, mas sei que este só não é mais azarão do que “Sicario”. Depois que o sindicato dos cinematógrafos deu o prêmio de 2016 a Lubezki, está mais do que na cara de que o mexicano será tri-campeão. Pouco importa também. Assista aos filmes e divirta-se.

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