A política de José Leonilson

Por DAIGO OLIVA

José Leonilson, o Leonilson, o Leó, morreu aos 36 anos, em maio de 1993. Meses antes, no final de 1992, o artista, cuja obra ficou marcada pelos trabalhos autobiográficos e contundentes, assistiu ao ex-presidente Fernando Collor deixar o Planalto em meio a um país convulsionado. País esse que ainda se acostumava a experimentar a democracia depois de anos de ditadura militar.

As muitas dúvidas de Leonilson sobre política, amor, Aids e família estão expostas em “A Paixão de JL”, belo documentário dirigido por Carlos Nader, que parte das fitas-diário gravadas desde 1990 pelo cearense radicado em São Paulo e deixadas para que se tornassem parte de seu acervo artístico. Certificar-se de que tudo o que Leonilson produzia era verdadeiramente fruto de alguém com sensibilidade fora do normal é um alento para os obcecados por sua obra.

Nader dá atenção especial para a palavra, coluna vertebral dos “trabalhinhos” de Leó, como ele próprio chamava as peças que produzia. Os relatos são legendados com as frases picotadas –uma a uma, as palavras aparecem na tela, separadas, da mesma forma como elas aparecem nos bordados, desenhos e pinturas feitos por este artista espetacular.

Há um mês, a “Ilustrada” publicou uma capa sobre o documentário, com reportagem de Angela Boldrini, crítica de Inácio Araujo e análise de Silas Martí. Acrescento apenas dois pontos. 1) Fui ao cinema, no Espaço Itaú do shopping Frei Caneca, em São Paulo, e tive uma excelente surpresa: todas as sessões do filme de Nader, produzido pelo Itaú Cultural, são gratuitas nesta rede de cinemas. 2) Quem se incomoda com a histeria de dois lados (?) que não se conformam com a opinião alheia e enxergam tudo numa ótica binária vai gostar do comentário de Leonilson sobre a política naquele Brasil de 1992 –transcrevo-o abaixo. O artista esteva sempre entre oceano e deserto, sim e não, mala sem alça e poço sem fundo. Na dúvida, permaneça em dúvida.

“São seis horas da tarde do dia 12, e eu acho que a maioria das pessoas tá completamente louca, sabe, com a situação do país. E eu acho o máximo, de repente, no meio desse heavy metal todo que é o mundo da gente, todo mundo lutando pela sobrevivência. Maior loucura total. Aí tem um cara que dedica seu tempo pra fazer uma obra de arte, uma coisa delicada, uma coisa amorosa, romântica, um coração, e coloca isso à público, entrega o coração dele nas mãos das pessoas, nos olhos das pessoas. (…) Tão louco o Brasil, né? Minha cabeça vai de um lado para o outro, de um lado pro outro, e eu não quero ficar louco, não. Eu quero ficar bem calminho. A única coisa que eu quero é trabalhar direito. Trabalhar direito e vê se eu encontro alguém pra dormir comigo.”

ps. a obra acima, “Para quem Comprou a Verdade”, não está no filme, mas serve para o momento atual. Para quem comprou a verdade, um pódio invertido. Os louros, o centro e o tombo.

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