Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Cristina de Middel inverte papéis da prostituição e paga para retratar clientes de garotas de programa

Por DAIGO OLIVA

O texto abaixo foi publicado na versão impressa da “Ilustrada” desta sexta-feira (1º).

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Se um extraterrestre viesse à Terra e tentasse compreender o que é a prostituição baseando-se em imagens, chegaria à conclusão de que esse é um serviço composto apenas por mulheres nuas em quartos sujos. Enquanto as garotas de programa são temas de reportagens, documentários e ensaios fotográficos, quem usufrui desse tipo de negócio quase sempre permanece oculto.

Qual seria então a melhor forma de conhecer rostos, razões e preferências de quem paga para gozar o corpo alheio? Pagando. Por meio de anúncios publicados nos jornais cariocas “O Dia” e “Extra”, Cristina de Middel, 41, conseguiu reunir 12 homens que com frequência recorrem a prostitutas.

Na série “Gentlemen’s Club”, a espanhola inverte papéis e faz com que eles se tornem garotos de programa, enquanto ela é a consumidora. Em vez de sexo, porém, busca apenas fotografá-los.
Nas sessões, que não passam de 15 minutos, ela os retrata vestidos sobre as camas dos mesmos locais onde as transas ocorrem —prostíbulos nas regiões das praças Mauá e Tiradentes, no Rio.

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Também barganha valores: caso o personagem permita mostrar o rosto, o serviço vale R$ 150. Já os mais tímidos, dispostos a exibir o corpo, mas sem revelar a face, recebem R$ 100. Todos eles, no entanto, compartilham seus nomes e um pouco de suas histórias. Foi assim que a fotógrafa conheceu o segurança Daniel, 34, casado e pai de oito filhos, que não gasta nada pelos serviços pois trabalha no mesmo clube das prostitutas. Ou ainda o garçom Walter, 50, que começou a sair com garotas de programa aos 30 anos porque não tinha uma namorada. Dez dos retratados não
se importaram em expor a identidade completamente.

“Não pretendo me posicionar sobre a prostituição nem dizer que deve ser legalizada ou proibida. Quero oferecer um retrato completo da atividade”, afirma De Middel. “A segunda metade do negócio é simplesmente esquecida, não se sabe que cara os clientes têm. Parece até que as mulheres estão nuas esperando alguém que nunca vem, porque os clientes não existem.”

A espanhola, cuja habilidade com o idioma local varia “de acordo com o nível de caipirinha no sangue”, teve o auxílio do fotógrafo carioca Bruno Morais, 40, que ajudou na produção da obra.
A partir do anúncio que procurava “homens para trabalho remunerado em projeto artístico sobre prostituição”, a dupla recebeu retornos de gente que achava se tratar de uma proposta para gravação de filme pornô, ensaios fotográficos de nu ou até mesmo para se prostituir.

Segundo Morais, mais de 40 pessoas os procuraram, mas foi necessário fazer uma seleção dos personagens –além de esclarecer que a busca era por clientes de prostitutas, escolheram os homens a partir de diferentes idades, classes sociais e ocupações, ou então “quase todos seriam seguranças de boates”, afirma De Middel. Antes das fotos, eles se reuniam com os homens em bares próximos aos locais das fotos para explicar que os registros poderiam aparecer na imprensa ou em galerias de arte e pediam autorizações de uso de imagem.

Maginô, 46 years old. He works in intenational commerce. He is dovorced and has one daughter. He goes with prostitutes twice a week and normally pays 80 Reais for a session. He canñt remember the first time he went with a prostitute but does it to get some variety without commitment.
Maginô, 46, que trabalha com comércio exterior, é divorciado. Ele sai com prostitutas 2 vezes por semana. Foto: Cristina De Middel

Este não é o primeiro trabalho da artista no Brasil. Principal nome do boom da fotografia espanhola após lançar o cultuado fotolivro “The Afronauts”, De Middel costuma criar a partir de pequenas subversões —ela já apagou parágrafos do livro vermelho de Mao Tse Tung para formar frases irônicas, por exemplo. Há dois anos, registrou a Rocinha como se estivesse no fundo do mar.

Ali, os moradores da favela viraram peixes pequenos que fogem da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), representada por um balão em formato de tubarão comandado por controle remoto.
No novo trabalho, retoma uma ideia explorada pelo fotógrafo norte-americano Philip Lorca-diCorcia, que, no começo da década de 1990, realizou retratos com michês. Da mesma forma, o artista também custeava os garotos de programa apenas para serem fotografados.

Agora, a espanhola quer levar a mesma ideia para cidades como Amsterdã e Bancoc. “O nível de hipocrisia sobre o assunto é vergonhoso. Os jornais denunciam a prostituição e tratam as prostitutas como párias, mas, páginas depois, anunciam o serviço e lucram com as atividades.”

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