Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Em mostra, Felipe Russo exibe fotos de garagens automáticas, signos da SP desenhada para carros

Por DAIGO OLIVA

Em meio à escuridão de prédios sem janelas, elevadores levavam centenas de carros para que fossem estacionados. Os automóveis iam até suas vagas sem que ninguém relasse nos volantes.

Construídas no centro de São Paulo a partir dos anos 1960 e agora documentadas pelo fotógrafo Felipe Russo, 36, as garagens automáticas são marcos de um período de consolidação das mudanças que levaram a capital paulista a se tornar uma cidade desenhada para carros.

Enquanto a Radial Leste havia sido inaugurada no final da década anterior, São Paulo preparava-se para receber, em 1971, o Minhocão. Mas, diferentemente das grandes vias —retrato mais óbvio do trânsito caótico da cidade—, esses edifícios-garagens de até 38 andares seguem como signos discretos dessas transformações.

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Uma exposição em cartaz agora na Casa da Imagem revela 21 imagens e um vídeo das incursões de Russo por 12 estacionamentos automáticos por mais de dois anos. Junto aos registros, exibe um mapa com a localização das garagens e informações de cada uma das construções: nome, número de andares e de vagas, ano em que os edifícios foram erigidos e marca dos elevadores.

Em fotografias realizadas com uma câmera de grande formato, Russo mostra vãos, vazios e fachadas de estruturas totalmente projetadas para cumprir sua função. Elas suportam o peso dos carros, mas não têm revestimentos, isolamento térmico ou qualquer outro requisito de prédios que abrigam pessoas, uma vez que automação dispensariam manobristas.

O que seria um espelho do futuro, no entanto, revelou-se um problema: para subir ou descer um carro, um elevador levava em média cinco minutos. Caso se formasse uma fila de quatro carros, o tempo para que o quarto motorista pegasse seu carro seria de 20 minutos.

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Ainda que o sistema tenha sido alterado para incluir manobristas e assim agilizar o serviço, as garagens seguem essencialmente mecânicas. “A ideia era pensar em uma máquina que guarda máquinas,” explica Russo. “Os funcionários entram nos carros, colocam-os nos elevadores, estacionam os automóveis e descem pelo elevador. O prédio continua sem abrigar pessoas.”

A arquitetura dos ambientes gerou dificuldades. Além da complexidade para se locomover, Russo chegou a ficar cinco horas dentro do fosso de um elevador. Sem luz —os prédios têm apenas respiros nas paredes—, algumas das fotos precisaram de exposição de até duas horas.

“Queria entender esses prédios como corpos com movimentos próprios e em que você pode entrar para vivenciá-los. No caso, como estar dentro de um robô”, explica. Por isso, não fotografou pessoas: focou a estrutura, o mecanismo, o que era comum a todas as garagens, como vãos e elevadores, e ignorou carros de colecionadores ou uma geladeira que encontrou pelo caminho.

O fotógrafo diz gostar de pensar nessa tecnologia como “algo quase arcaico, mas que segue funcionando”. “Se decidirmos ter uma cidade com menos carros, o que faremos com as garagens?”

GARAGEM AUTOMÁTICA
ARTISTA Felipe Russo
QUANDO de ter. a dom, das 9h às 17h; até 16/10
ONDE Casa da Imagem, r. Roberto Simonsen, 136-B, tel. (11) 3106-5122
QUANTO grátis

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