Overdose de subjetividade oculta boa história de ‘Topographies du Mensonge’, de Sue-Elie Andrade

Por DAIGO OLIVA

‘Topographies du Mensonge’, de Sue-Elie Andrade-Dé – O estranhamento começa no título, em francês. Mas, logo em seguida, vem um texto introdutório em português. Antes que alguém acuse a autora de “Topographies du Mensonge” de ser pedante, é preciso esclarecer que Sue-Elie Andrade Dé é franco-portuguesa. E, neste caso, as palavras são cruciais para entender a obra lançada em 2015 e cuja tiragem tem apenas cem cópias: o fotolivro conta a descoberta, em fevereiro de 2010, quando a fotógrafa tinha 23 anos, da existência de um irmão mais velho. O que levou a uma redescoberta de seu próprio pai. Embora a tradução do título seja “topografias da mentira”, o irmão, segundo a artista, foi originado a partir de um relacionamento anterior de seu pai e desconhecido até mesmo por ele próprio. A “mentira” do título parece revelar um rancor compreensível ao ser surpreendida pela notícia. Voltar à Ilha da Madeira, em Portugal, para que o novo irmão conhecesse a terra do pai, impôs um olhar diferente da fotógrafa sobre um lugar já visitado outras vezes. Para expressar como encarou a nova situação, Sue-Elie então exibe paisagens, rachaduras, buracos e, por exemplo, uma escada que não leva a lugar algum. É impressionante como fotografar a natureza tornou-se um artifício ultrarecorrente –e vago– para espelhar sentimentos confusos. E, assim como disse ao comentar o fotolivro “Hart”, as abordagens geralmente utilizadas para discorrer sobre elementos impalpáveis fazem com que qualquer imagem possa representar tudo e ao mesmo tempo nada. As fotografias de “Topographies” são lindas, e o livro é muito bem feito, mas me levam a perguntas sobre obras que contemplam a vida íntima do autor: “Essa experiência particular importa aos outros? O que essa passagem da minha vida tem de universal?”. Afinal, de que forma algo que faz tanto sentido para mim será refletida nos leitores? Parece-me óbvio que há muitos nomes que conseguem superar a barreira do umbigo –Nan Goldin, num exemplo rápido e rasteiro–, mas para cada exceção há dezenas de contra-exemplos. A vantagem de Sue-Elie é ter em mãos uma história muito interessante, que atrai mais do que temas batidos como “a passagem da infância para a adolescência”. Além disso, a maneira como a fotógrafa nos conta que “Topographies du Mensonge” se origina a partir da descoberta de um irmão é muito inteligente. A brincadeira com as datas, no final da obra, faz com que o leitor solte um “aham!” ao captar o tema. Mas, para chegar até lá, ele tem de passar por um jornada visual que muitas vezes se encaixa apenas na cabeça de seu autor. É natural que muitos fotógrafos se afastem da realidade ao usar um suporte tão literal quanto a fotografia. O resultado disso, no entanto, deságua numa overdose de subjetividade, e pouco é dito com contundência.

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Atualização: A primeira versão do texto afirmava incorretamente que o irmão da fotógrafa havia nascido na Ilha da Madeira. O texto também dizia que a viagem feita pela família da artista para Portugal tinha como objetivo conhecer o novo parente. Na verdade, a viagem foi realizada para mostrar a terra natal do pai de Sue-Elie ao irmão. O texto foi corrigido.

TOPOGRAPHIES DU MENSONGE 
AUTORA Sue-Elie Andrade-Dé
EDITORA #iamnotfrench / Noiz É Book
QUANTO R$ 60 (62 págs.)
AVALIAÇÃO bom

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Haikai: em críticas curtas, o blog comenta fotolivros lançados neste ano.

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