Annie Leibovitz emula mercado e transforma guinada conceitual em reposicionamento da marca

Por DAIGO OLIVA

O texto abaixo foi publicado na “Ilustrada” desta segunda-feira (25) junto a reportagem de Silas Martí sobre o recente ensaio da fotógrafa norte-americana Annie Leibovitz, em cartaz agora na Cidade do México e que marcaria uma reinvenção de sua carreira a partir da militância feminista.

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Em dezembro de 2015, Annie Leibovitz marcou uma mudança significativa nos ensaios do calendário Pirelli. Em vez de retratos de modelos de biquíni em poses sensuais, a empresa italiana escolheu a fotógrafa para fazer um ensaio apenas com “mulheres inspiradoras” –Yoko Ono, Serena Williams, Patti Smith, Amy Schumer, entre outras.

Assim que os ventos do mercado mudam, as marcas se reposicionam. Leibovitz age agora da mesma forma. Elabora um discurso de valorização da “mulher de verdade”, embora a maneira como fotografa esteja distante do cotidiano. Em seus retratos, os personagens parecem tudo menos pessoas comuns –culpa das poses monumentais e do pesado tratamento de cor que aplica às fotos.

A documentarista Laura Poitras em retrato de Annie Leibovitz na mostra 'Women', agora na Cidade do México
A documentarista Laura Poitras em retrato de Annie Leibovitz na mostra ‘Women’, agora na Cidade do México

Neste novo ensaio, essa fórmula ainda predomina, mas a fotógrafa aponta para outros caminhos, especialmente nas fotos da documentarista Laura Poitras e da artista Cindy Sherman. Sherman, um dos nomes mais importantes da arte contemporânea, aparece numa foto de flash estourado e enquadramento que corta as mãos. Ao fundo, um estúdio desorganizado, bem longe das produções milimetricamente arrumadas de antes.

Leibovitz pode até se livrar da pecha de fotógrafa comercial para virar uma artista conceitual, mas está fazendo isso a partir da estética de outros artistas, como Wolfgang Tillmans e Juergen Teller.

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