Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Vídeo de menino sírio paralisado após ataque aéreo exibe raiz da tragédia que matou garoto refugiado

Por DAIGO OLIVA

Quase um ano depois, a imagem de uma criança volta a gerar comoção internacional. Nesta quinta-feira (18), um vídeo divulgado pelo grupo Aleppo Media Centre, ligado à oposição síria, mostra um menino de cinco anos, coberto de sangue e poeira, sentado em um banco de uma ambulância.

O apartamento da família do garoto Omran Daqneesh foi atingido por um ataque aéreo na cidade de Aleppo, no norte do país, em guerra civil há mais de cinco anos. Em choque, como se não entendesse o que havia acabado de ocorrer, o garoto demora até mesmo para perceber que sua cabeça sangra. Ele não chora, não fala –parece apenas paralisado depois de ter sido resgatado.

Em setembro de 2015, a fotógrafa turca Nilufer Demir registrou o corpo do menino Alan Kurdi, de três anos, estatelado à beira do mar, escancarando a tragédia de milhares de refugiados que tentam chegar à Europa. Alan morreu em um naufrágio junto a outros 11 sírios que iam em direção à ilha grega de Kos. Naquele momento, embora a crise dos refugiados já estivesse nos noticiários de todo o mundo, a fotografia do garoto fez com que a questão ganhasse outro nível de importância.

Não apenas cristalizou a ideia de que um plano para acolher refugiados era fundamental como acelerou as negociações que desembocaram em um acordo de migração –muito criticado por organizações humanitárias– entre União Europeia e Turquia. Embora não tenha sido o pacto ideal, não há dúvidas de que a imagem da criança estatelada na areia provocou uma reação imediata.

O vídeo da criança síria também tem potencial para criar a repercussão necessária que levará a guerra civil na Síria de volta às primeiras páginas de grandes jornais. Uma vez que o conflito já dura cinco anos, o que era novidade acaba se tornando rotina e deixa de ser notícia, por mais absurda e violenta que a situação se mantenha. O registro, de Mahmoud Raslan, correspondente da Al Jazeera, emociona porque o garoto de certa forma estampa a irracionalidade do conflito.

FILE - In this September 2, 2015 file photo, a paramilitary police officer investigates the scene before carrying the lifeless body of 3-year-old Aylan Kurdi from the sea shore, near the beach resort of Bodrum, Turkey. Turkey's state-run news agency said Friday March 4, 2016 a court has sentenced two Syrian smugglers to four years and two months each in prison over the death of 3-year-old migrant boy Aylan Kurdi and four other people. (AP Photo/Nilufer Demir, DHA, File) TURKEY OUT ORG XMIT: LON801
Policial vistoria o corpo de Alan Kurdi, 3, na praia de Bodrum, na Turquia; ele estava em barco de refugiados que partiu de Kobani (Sìria) rumo à ilha de Kos (Grécia)

O garoto mal sabe o que ocorreu e certamente não entende o porquê daquilo tudo. Simboliza algo que muitos de nós questionamos: “Por quê?”. Omran, assim como os três irmãos e os pais, está vivo. Segundo Raslan, nenhum dos familiares do menino teve ferimentos graves. Ainda que a imagem não carregue a morte de uma criança, ela ecoará como a representação de algo que acontece silenciosamente no cotidiano da Síria, mas nunca deixa de ser um absurdo.

É curioso pensar que Omran e Alan, ambos sírios, então ligados. Diante da intensificação da guerra civil, o pai do garoto que morreu na Turquia partiu para Aleppo, depois para Kobani e em seguida para Istambul, até tentar ir à Grécia. A tragédia parte então de um mesmo ponto, remediada com pontas soltas por acordos de migração, mas que segue quase intacta em sua raiz.

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