‘Ponte Dourada sobre Rio Noturno’, fotolivro de Ilana Lichtenstein, constrói sutil jogo da memória

DAIGO OLIVA

‘Ponte Dourada sobre Rio Noturno’, de Ilana Lichtenstein – A vocação da fotografia para conservar memórias vem passando por uma mudança drástica. Hoje, parece-me mais importante ter a certeza de que passagens da vida estão sendo documentadas do que a contemplação dessas lembranças. Mais: o alívio de ter os registros disponíveis a qualquer momento produziu um efeito contraditório, banalizando a construção de memorabilias. Possuir as recordações está acima de desfrutá-las. Por isso, é ainda mais gracioso o formato do fotolivro lançado pela paulistana Ilana Lichtenstein, que resgata não só a dinâmica dos antigos álbuns de fotografia –lembra daqueles clássicos da Fotoptica?– como emula folhas de um calendário, e portanto trata da materialização do tempo. Em “Ponte Dourada sobre Rio Noturno”, o leitor percorre as imagens de baixo para cima, a partir de uma encadernação manual delicada no topo da obra, e cada página contém uma discreta linha tracejada para ser picotada. Assim, quem desmembrar o livro poderá construir um jogo da memória com recordações da família de Ilana, embora eu sempre duvide que alguém vá comprar um fotolivro para esfarelá-lo. Sugerir, no entanto, é a parte mais importante neste caso. Ao mesclar fotos de Ilana feitas no Japão entre 2013 e 2015 e registros dos anos 1960 e 70 realizados pelo avô dela, “Ponte Dourada” conecta memórias da infância e adolescência da mãe da artista às imagens do período em que a fotógrafa viveu no Japão e de visitas após retornar ao Brasil. O elo entre as partes se estabelece nos traços do rosto da mãe de Ilana, estranhamente orientais, embora sua ascendência seja polonesa, e da impossibilidade de levá-la à Ásia. Dois mil e treze, ano em que Ilana se mudou para Kyoto, coincide com o início da deterioração da saúde de sua mãe, que morre um ano depois. A obra é o luto da fotógrafa, mas a simples reunião de memórias parece um pouco mais complexa aqui. Soma-se aos registros de Ilana e de seu avô a foto de uma senhora japonesa, aluna da artista em cursos de português on-line. Colocada sem aviso em meio às outras lembranças, a imagem da infância dessa senhora, Keiko, torna-se também uma imagem da infância da mãe de Ilana, sem que exista um sobressalto ou um estranhamento. De uma forma engenhosa, o fotolivro imita um pouco o que a própria memória faz: liga pontos que não existiam, distorce lembranças da forma como queremos recordar os fatos e nos lembra que a fotografia é um enquadramento da realidade, e nunca a realidade em si. A coerência da edição para unir linguagens diferentes, mas próximas –fotos coloridas, em preto e branco, com bordas, sem bordas, claramente feitas em décadas passadas, obviamente feitas há pouco, embora com película–, está na atmosfera japonesa. A delicadeza, a natureza e a discrição, tão caras aos japoneses, revelam-se em todas as páginas. Ilana não é Rinko Kawauchi, mas faz, ao seu modo, sua interpretação do país e da morte –o tal “rio noturno”. Ao final, não é preciso destacar as páginas para montar um jogo da memória. A brincadeira já está diluída no fotolivro. E ela se faz também pelos brancos deixados pelo projeto gráfico de Tamara Lichtenstein, irmã de Ilana. Entender o processo de uma obra é mais fácil para quem também o viveu.

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O lançamento de “Ponte Dourada Sobre Rio Noturno” ocorre no sábado (3), das 12h às 18h, na DOC Galeria (r. Aspicuelta, 145, tel. 11-2592-7922). A entrada é gratuita.

PONTE DOURADA SOBRE RIO NOTURNO
AUTORA Ilana Lichtenstein
EDITORA autopublicado
QUANTO R$ 80 (60 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

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Haikai: em críticas curtas, o blog comenta fotolivros lançados neste ano.

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