Após saída de diretor, Paraty em Foco promete ‘volta às origens’ com edição mais conservadora

Por DAIGO OLIVA

O cenário era incerto, mas a 12ª edição do Paraty em Foco será realizada entre os dias 14 e 18 de setembro. Mais tradicional festival de fotografia do Brasil, o evento sofreu um baque no fim de 2015, quando Iatã Cannabrava, então diretor da mostra há nove anos, resolveu deixar o cargo depois de uma série de desentendimentos com o criador do Paraty, o italiano Giancarlo Mecarelli.

Responsável por dar forma ao festival, Cannabrava criou o modelo de cinco dias de debates e oficinas que atraiu à cidade fluminense público e nomes nacionais e internacionais, como o francês Antoine D’Agata, a espanhola Cristina de Middel e o brasileiro Miguel Rio Branco. Ele também tornou o evento mais contemporâneo e expandiu o perfil dos convidados para além da fotografia.

Fora da grande maioria das decisões desde que Cannabrava assumiu o controle do festival, Mecarelli volta a organizar a programação do Paraty, algo que já havia feito na primeira edição da mostra, em novembro de 2005. Com 34 convidados, selecionados em parceria com o fotógrafo Paulo Marcos de Mendonça Lima, a edição 2016 do Paraty promete ser uma “volta às origens”.

No texto publicado no site do festival, a organização diz que a mostra será “dedicada à valorização da fotografia feita com excelência e voltada para questões essenciais, uma fotografia que sensibilize pela qualidade e também pelo conteúdo”. Em dezembro, quando Cannabrava anunciou a saída, Mecarelli disse que a linha mais conceitual do ex-diretor estava “fora de foco”.

Também na nota de apresentação, a direção diz que vai “abrir mão de artifícios pirotécnicos em nome de uma relação mais íntima com a cidade” e que o local das mesas voltará a ser a Casa da Cultura de Paraty. “Em lugar de uma grandiloquente (e por vezes invasiva) tenda central, projeções tomarão diversos pontos da cidade”, informa o comunicado, em outra alfinetada ao antigo diretor.

Cannabrava, que em outubro estreará um novo festival de fotografia sob sua direção, o Valongo, a ser realizado em Santos, diz que “não havia pirotecnia, e sim democracia”. “A tenda central, gratuita, comportava 600 pessoas, a Casa da Cultura, 160. Vou continuar apoiando o festival, mas não dá para centrar a edição do evento na saída do antigo diretor. Isso é incontinência verbal.”

A curadoria do Paraty deste ano vai mesclar artistas conhecidos do cenário brasileiro, como Eustáquio Neves, Walter Carvalho e Luiz Garrido, e fotógrafos mais ligados a trabalhos comerciais, casos de Tony Genérico, de imagens de splashes e voltado ao mercado publicitário, e de Renato Rocha Miranda, responsável por muitas das fotos de divulgação de séries e novelas da TV Globo.

O festival também se volta mais a Paraty. Trineto de dom Pedro 2º e bisneto da princesa Isabel, o fotógrafo Dom João de Orleans e Bragança, que mantém uma casa histórica na cidade, participará de uma mesa com Pedro Vasquez. Também estarão na mostra o empreendedor social Daniel Cywinski, que se mudou para Paraty em 2010 e dirige a associação Cairuçu, e o mineiro Gabriel Toledo, especializado em fotografia de aves e que vive no município desde criança.

Por outro lado, o evento traz como principal destaque o russo Gueorgui Pinkhassov (imagem acima), membro da agência Magnum desde 1988. Ele fará um debate junto à fotojornalista carioca Ana Carolina Fernandes. Radicado em Paris, o fotógrafo construiu nas últimas décadas um trabalho com imagens de cores vivas que transforma momentos do cotidiano em quase abstrações.

CANCELAMENTO

A exposição do homenageado deste ano, o nonagenário Assis Horta, que fez o primeiro retrato de centenas de pessoas após a obrigatoriedade da carteira de trabalho, foi cancelada devido “a impossibilidade de um patrocinador em disponibilizar o montante necessário para o transporte de um acervo delicado e muito antigo, além da montagem”. Questionado por e-mail sobre o cancelamento, Mecarelli foi evasivo e disse que “ruim para um festival é não acontecer ou oferecer parcas possibilidades de interação com quem busca desenvolver técnicas e um novo olhar”.

“O maior patrimônio do Paraty em Foco são as pessoas que trocam conhecimento e experiências”, acrescenta. “Ao longo de 12 anos construímos uma relação com o mercado de fotografia que está acima de personalidades, inclusive a minha, como fundador do encontro. Lamentamos a ausência do Assis Horta, mas certamente ainda exibiremos sua obra.” No lugar da mostra do mineiro, o Paraty vai apresentar uma exposição do paulistano Paulo Friedman, com 17 retratos de trabalhadores de diferentes áreas e nacionalidades em seus respectivos locais de trabalho.

Em 2015, a antiga organização do Paraty divulgou o custo de R$ 1,1 milhão para realizar o evento. Agora, o diretor diz que não divulga valores. “Num momento em que todas as iniciativas culturais estão com enormes dificuldades de captação de patrocínio, estamos assinando um contrato que nos permitirá oferecer um Paraty em Foco ainda melhor”, diz ele. A menos de uma semana do início do evento, Mecarelli afirma que está aguardando “a autorização do patrocinador para dar a devida visibilidade”. “Independentemente de patrocínio, o festival foi viabilizado graças ao apoio inestimável de empresas como a Canon, Magnum, Canson Infinity e revista ‘Fotografe Melhor'”.

Veja a programação completa do Paraty em Foco 2016 aqui.

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