Abandono do projeto modernista ganha vida em narrativa engenhosa de Jonathas de Andrade

Por DAIGO OLIVA

‘Ressaca Tropical’, de Jonathas de Andrade – Em outubro, participei de uma das mesas do festival Valongo, em Santos, na qual estavam a professora holandesa Corinne Noordenbos e o historiador espanhol Horacio Fernández. A última pergunta do debate, que foi batizado “Fotolivros para uma Ilha Deserta”, era justamente quais fotolivros ambos os convidados levariam a uma ilha deserta. Para essa pergunta boba de um mediador bobo, Fernández deu uma ótima resposta. Disse que levaria uma obra que possibilitasse diferentes interpretações a cada leitura. Trata-se de condição cruel, uma vez que poucos livros atendem a essa premissa. Meses após o evento, ainda me peguei pensando que publicações releio com frequência. Triste constatação: excelentes livros permanecem silenciosos na estante após a euforia inicial. Não é o caso de “Ressaca Tropical”, de Jonathas de Andrade, ao qual voltei diversas vezes desde que o comprei, em dezembro. Não apenas pelas diferentes camadas que compõem a obra, mas principalmente devido aos relatos do diário que guia a publicação. Concebido em 2009 como instalação e agora lançado no formato de fotolivro pela Ubu Editora, o trabalho intercala imagens de diferentes períodos do Recife e trechos de um diário encontrado no lixo. Os relacionamentos superefêmeros do narrador anônimo espelham e se misturam às mudanças da capital pernambucana, achatando ruínas, expectativas amorosas, um projeto arquitetado para o futuro –o modernismo– e o presente falido. A justaposição de diversos tempos históricos é traduzida por meio do projeto gráfico de Elaine Ramos, que concebeu uma montagem engenhosa: páginas inteiras de fotografias documentais ou de imagens de um acervo pessoal são sobrepostas, na parte superior, por pequenos folhetos com outras cenas da cidade e de vida íntima, alternando registros em preto e branco e coloridos, fotos em película e digitais, Recife antigo e atual. O interior de uma construção abandonada, tomada por plantas, por exemplo, é cortado por uma série de registros de fachadas de edifícios modernistas. Já na parte inferior, em páginas amarelas, há os textos da caderneta resgatada. Escrito quase todo na década de 1970, o diário não está em ordem cronológica, o que reforça a variação de épocas. O bom projeto gráfico, porém, peca na escolha da capa, dura e pouco conectada ao restante do desenho do miolo. “Ressaca Tropical” merecia uma capa mais leve e menos tradicional.

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Admiro a complexidade das obras de Jonathas. Caso o artista tivesse apenas intercalado as imagens de diversos períodos do Recife, já teria cumprido a proposta de “tatear a história que o procede”, como ele disse a Silas Martí em entrevista publicada na Folha em 2010. O alagoano, no entanto, revisita a memória do modernismo, exibe o abandono desse movimento arquitetônico que mirava o futuro e adiciona uma nova camada –a história de um personagem da cidade–, o que tira a esterilidade do projeto moderno e dá vida ao fotolivro. Das muitas vezes que vi “Ressaca Tropical”, a mais interessante foi a última, quando folheei a obra com minha sogra, pernambucana radicada em São Paulo desde 1976. Ela, como todo recifense que conheço, carrega feroz orgulho de sua cidade. O livro trouxe memórias e histórias da cidade, como o parque 13 de maio, os cinemas de rua, entre outros. Nostalgia é bicho difícil de combater. Também por meio dos escritos do diário, Jonathas injeta elementos muito brasileiros ao trabalho: futebol, religião, um policial civil que busca um acordo, Carnaval, críticas ao comunismo em meio à ditadura, enchentes e sexo. O sexo, aliás, carrega uma ambiguidade característica dos trabalhos de Jonathas. Mesmo que não seja possível afirmar que o narrador viveu experiências homossexuais, essa possibilidade fica no ar devido a uma sucessão de encontros com homens. Aqueles que conhecem outras obras do artista talvez esperem que ocorra uma virada homoerótica –o que não acontece.

RESSACA TROPICAL
AUTOR Jonathas de Andrade
EDITORA Ubu Editora
QUANTO R$ 76 (200 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

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Haikai: em críticas curtas, o blog comenta fotolivros lançados neste ano.

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