No fotolivro ‘Sobretempo’, Mariana Tassinari faz engenhosas colagens de memórias com fotos do avô

Por DAIGO OLIVA

‘Sobretempo’, de Mariana Tassinari (Olhavê) – Mariana Tassinari é uma artista que me fascina pela maneira sofisticada com que conjuga referências de arquitetura e design em seus trabalhos fotográficos. A paulistana cria obras silenciosas, de ritmo bem lento, invadidas por interferências que causam estranhezas bem-vindas. Anteriormente, essas intromissões eram mais explícitas e agressivas: na maioria das vezes, materializavam-se em formas geométricas pesadas sobre paisagens ou cenas urbanas. Em outros momentos, elas apareciam de uma maneira mais discreta, com elementos –também geométricos– vazados, que cercavam detalhes das imagens. Em ambas as estratégias, Tassinari parece atuar como uma arquiteta que trabalha na reforma de um prédio histórico. Ali, todas as modernizações precisam ser alterações claras do projeto original, e não imitações do que foi construído antes. A influência da arquitetura se explica por meio de uma breve passagem pelo curso de arquitetura do Mackenzie, o que segundo ela, foi fundamental na formação de seu olhar. Em 2015, produziu o documentário “Eduardo de Almeida: Arquiteto da Medida Justa” (Eduardo é pai do fotógrafo da Folha Lalo de Almeida). Agora, em “Sobretempo”, a artista faz uma transição dentro de seu modo de produzir. Por isso, diferentemente do miolo desse fotolivro, a capa e a contracapa ainda trazem as formas geométricas pesadas que obstruem partes de uma mesma imagem –uma brincadeira entre positivo e negativo de uma fotografia.

O estudo da natureza das imagens, aliás, é um dos principais pontos dessa obra. A partir de colagens com slides fotografados pelo avô da artista entre 1968 e 69, Tassinari constrói novas geografias, desenha paisagens e imagina lugares que poderiam ter existido. Ainda que seja possível identificar as emendas das fotografias, as junções começam suaves, e o leitor mais desavisado talvez nem perceba que se trata de uma ficção. É bonito como ela se arrisca no jogo da fotografia: aquilo que supostamente serve para registrar fatos, torna-se confuso, sobreposto. Não é assim que funcionam as memórias? Será que estive mesmo ali? Aquela história ocorreu mesmo na Espanha? Tudo, afinal, não faz parte da mesma vida? Com o passar das páginas, tudo vai ficando mais explícito, com cortes aparentes, sem a preocupação de “enganar” o leitor. Tassinari tem a sorte de contar com lindas imagens, que lembram o estilo do italiano Luigi Ghirri, pioneiro do uso da cor na fotografia, seja pelas paletas, seja pelo tipo de paisagem registrada (os slides originais, belíssimos, aparecem nas guardas do fotolivro). Uma pena, porém, que os materiais escolhidos para a capa do “Sobretempo” não tenham a mesma sofisticação das imagens. Esse tipo de obra, parece-me, remete a uma pequena caixa de memórias que pede capa dura e visual de um objeto antigo. O design do trabalho, feito por Tassinari junto a Bianca Muto, uma das metades da editora Pingado-Prés, até aponta nesta direção, com uma aplicação na borda que lembra etiquetas de arquivos, mas essa relação poderia ser muito mais intensa. O fotolivro falha como objeto, mas se sobressai quando visto como uma série fotográfica. O lançamento de “Sobretempos” ocorre nesta terça-feira (28), das 18h às 22h, no ateliê da artista (r. Lemos Conde, 36, Alto de Pinheiros).

SOBRETEMPO
AUTORA Mariana Tassinari
EDITORA Olhavê
QUANTO R$ 80 (104 págs.)
AVALIAÇÃO muito bom

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Haikai: em críticas curtas, o blog comenta fotolivros lançados neste ano.

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