Lançamento da ‘Zum’ terá exibição do novo filme de Vincent Carelli; leia trecho de texto da revista

Por DAIGO OLIVA

O lançamento da 12ª edição da “Zum”, publicada pelo Instituto Moreira Salles, ocorre nesta quinta (13), em São Paulo, junto à estreia do filme “Martírio”, de Vincent Carelli, destaque deste número da publicação. A revista traz também imagens de “Missão Francesa”, próximo livro de André Penteado, e um ensaio do fotógrafo canadense Jeff Wall.

Narrado em primeira pessoa, o documentário de Carelli retrata a luta dos índios Guarani Kaiowá contra deputados ruralistas que defendem fazendeiros e representantes do agronegócio no Congresso. Após a exibição do filme, haverá debate com o diretor e a psicanalista Maria Rita Kehl.

O evento será na sala 4 do Espaço Itaú de Cinema Augusta (r. Augusta, 1470), às 19h, com entrada gratuita mediante retirada de senha. Às 19h haverá o início da projeção do filme, seguido do debate. Leia abaixo um trecho do texto da curadora Hripsimé Visser sobre a carreira do fotógrafo e cineasta holandês Ed van der Elsken (1925-1990), presente nesta edição da “Zum”.

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O holandês Ed Van der Elsken foi um fotógrafo e impressor fora do comum, um criador de filmes e livros versátil que experimentava com vários formatos de exibição e montagem. Nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, ele se tornou um dos mais interessantes fotógrafos de rua de sua geração. Sua obra apresenta afinidade com o trabalho de William Klein, é sugestiva como a de Robert Frank e tem a sensualidade de Daido Moriyama.

Van der Elsken encontrou a maior parte de seus temas nos bairros operários de metrópoles como Paris, Amsterdã, Hong Kong e Tóquio. Não era um cronista de periferias, como às vezes se diz, mas buscava uma forma de beleza quase plástica, des pretensiosa e, em alguns casos, abertamente erótica. Era fascinado por pessoas que exibissem orgulho e vitalidade, qualidades que também o caracterizavam. Muitas vezes, Van der Elsken fotografava “sua” gente em situações teatrais, nas quais interferia com mão de diretor quando preciso. Em diversas fotos, tem-se a impressão de que ele estabelece um diálogo com os retratados. Desafiava os modelos, e sabia como fazer contato usando sua presença vigorosa e seu olhar impetuoso.

Além de ser um incansável fotógrafo de rua, Van der Elsken também capturava sua própria intimidade. Em seu primeiro livro, o romance fotográfico Uma história de amor em Saint-Germain-des-Prés (1956), usou um alter ego para dar um depoimento pessoal sobre a geração perdida na Paris do pós-Guerra. Mais tarde, incluiu as fotos de seu cotidiano em Paris no livro Paris! Fotos de 1950-1954 (1981). Fez muitos filmes em que ele e a família aparecem. Sua última obra, o filme Adeus (1990), é um relato sem concessões da fase terminal de sua doença.

Na produção de livros, Van der Elsken colaborou com designers holandeses talentosos e experimentou com diagramações e texto. Muitas de suas exposições eram instalações espaciais em que usava formas variadas de comunicação e apresentação. Como cineasta, ele sempre tentava desenvolver equipamentos que pudessem lhe dar autonomia. Para ele, a fotografia e o filme foram meios de intensa experimentação visual e formal.

Desde cedo, Van der Elsken trabalhava com cor, o que até a década de 1980 era considerado adequado apenas para a fotografia de moda e publicidade. Na década de 1970, já fazia projeções animadas de slides, combinando som e imagens em busca de uma forma autônoma que se diferenciasse de um filme ou livro. Durante muito tempo foi visto como fotógrafo documentarista por excelência. Entretanto, em sua obra, os limites entre a fotografia posada e o instantâneo intuitivo, entre a pré-visualização de imagens e o instante decisivo não são lineares como geralmente se supõe. Nos primeiros trabalhos, ele já fazia uso incidental de roteiros e esboços, prática que indicava o desejo de contar histórias e a abordagem cinemática da realidade. Tanto nos filmes como nas projeções de slides, a narrativa se baseava em abordagens diferentes, quase sempre reforçadas pelo uso bastante elaborado e pessoal de texto e som.

Embora às vezes trabalhasse sob encomenda, sobretudo na virada da década de 1960, quando colaborou com a revista Avenue, Van der Elsken costumava criar os próprios projetos de livros e filmes para depois buscar financiamento. A publicação de suas fotos rendia-lhe algum dinheiro, e, mais tarde, ele passou a vender cópias de época a colecionadores, mas sempre lutou para pagar as contas.

Tanto sua vida e sua personalidade quanto a curiosidade pelo “outro” –a mulher, o estrangeiro, o rebelde– foram pontos de partida em seu trabalho. Em muitos projetos e nas reportagens de viagem das décadas de 1960 e 1970, ele revelou um interesse autêntico por outras culturas. Nos filmes e nas fotos, o voyeurismo, o exotismo e o erotismo fundiam-se naturalmente com empatia, admiração e ternura.

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