Aos 70, Magnum encara o fato de ser uma empresa

Por DAIGO OLIVA

Em vez de comemorar 70 anos olhando a vela do bolo derreter, a Magnum preferiu reformar o salão antes que ninguém mais pudesse ir à festa. Pela primeira vez em sua história, a agência de fotografia mais célebre do mundo recorreu a investidores, uma mudança profunda para se manter de pé e que provocou o pedido de demissão de um de seus membros.

Por anos, a idealização sobre a importância da Magnum nublou a percepção de que, na prática, trata-se de uma empresa, e não de uma ONG. Além da disseminação de equipamentos digitais, que democratizou a produção e diminuiu o poderio da agência, a queda do mercado editorial foi determinante para jogá-la em situação financeira delicada. É um aniversário melancólico, mas agora ao menos há perspectiva.

De fato, é difícil enxergar a Magnum como uma firma em que funcionários batem cartão e precisam atingir metas ao final do mês. Tampouco funciona assim. Um de seus fundadores, o francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004), representa a fotografia de rua clássica, aquilo que se idealiza ao começar na profissão. Outro fundador, o húngaro Robert Capa (1913-1954), definiu o que é registrar uma guerra com seus trabalhos em vários conflitos na primeira metade do século 20. Assim, mais do que fotógrafos, viraram símbolos de uma estrutura sólida que depois reuniria excelentes nomes de estilos muito diferentes.

O alemão Thomas Hoepker flagra grupo de jovens no Brooklyn após o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001

Que outro lugar reuniria Martin Parr, Alec Soth, Marry Ellen Mark, Sergio Larrain, Alessandra Sanguinetti, Eve Arnold, Miguel Rio Branco, Susan Meiselas, Cristina García Rodero, Bruce Davidson, Alex Majoli, Alex Webb, Olivia Arthur e Antoine d’Agata?

Entre fotojornalismo, documentário, moda e trabalhos mais experimentais, a agência sempre contou com o topo da cadeia alimentar. Impressiona ainda o fôlego para abraçar jovens. Entre os candidatos a membros permanentes, por exemplo, está o belga Max Pinckers, que ainda nem completou 30 anos. Em 2016, a também belga Bieke Depoorter, 31, foi incorporada à equipe da agência em definitivo. Impressiona ainda mais que a Magnum tenha sobrevivido por sete décadas a tantos egos. Fotógrafo é uma raça complicada, cheia de vaidade, reclamações e ingenuidades.

FOTO A US$ 100

Mesmo que na parte financeira ela tenha sido golpeada pela criação de grupos com o mesmo espírito, como a VII e a Noor, a agência nunca teve sua santidade ameaçada. Preservar o legado, no entanto, é caro. Em 2014, a Magnum contratou David Kogan para ser CEO da empresa. A primeira mudança do gerente foi reforçar o relacionamento da marca com o público em geral, em vez de estreitar laços com meios de comunicação.

Cortou etapas e criou uma venda anual de fotografias assinadas, por US$ 100 cada uma (cerca de R$ 333) –um preço acessível. Quem comprou, porém, deve ter ficado um tanto chateado com o tamanho acanhado das cópias. Ao aceitar investimento externo, fica claro que a estratégia não tapou o buraco. Agora, a mudança significa a criação de uma subsidiária, a Magnum Global Ventures, que controlará todos os ativos da empresa. Para John Vink, o membro desertor que curiosamente votou a favor da modificação, assinar o novo contrato significa ter de aceitar trabalhos impostos pela agência, o que restringiria sua liberdade.

“Tenho certeza de que o material produzido pela Magnum continuará a nos inspirar”, afirmou Vink ao “British Journal of Photography”. “O contexto em que será produzido será um ajuste ao mundo em que vivemos. É assustador e aparentemente inevitável. Por sorte, existem salvaguardas na configuração da agência que garantem que a Magnum estará aí por muito tempo. E é claro que isso é algo muito bom.” Se dessa vez a mudança se mostrar efetiva, a agência chegará bem aos cem anos. E, se cada vez mais pessoas fotografam nos dias de hoje –um dos motivos que diminuiu a força financeira da agência–, mais pessoas se interessarão pela história da fotografia. E essa história passa pelo legado da Magnum.

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