Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Fotógrafo encontra garoto da imagem do réveillon, mas não diz quem ele é; derrota para o jornalismo

Por DAIGO OLIVA

Enquanto as redes sociais se debatem sobre a simbologia da fotografia feita por Lucas Landau durante a virada do ano, escrevo algumas observações sobre fotojornalismo –uma vez que as discussões em torno das possíveis alegorias dessa imagem já se esgotaram.

Antes, claro, um pouco de contexto para quem não se conectou à internet desde o primeiro dia de 2018: o carioca, contratado pela agência de notícias Reuters para fotografar o réveillon de Copacabana, registrou um garoto negro, sozinho, sem camisa, com a água do mar no joelho, observando a queima de fogos. Logo atrás, num plano desfocado, a fotografia exibe pessoas vestidas de branco, de costas para o menino, abraçando-se e comemorando o novo ano.

A cena, distribuída em cores pela Reuters e publicada em preto e branco por Landau em suas redes sociais, viralizou, detonando a primeira polarização do ano. De um lado, aqueles que dizem ver na imagem a representação da desigualdade social no país, e, de outro, os que defendem não haver elementos suficientes para pintar esse quadro, pois o fotógrafo não sabia o nome nem em que condições o garoto estava ali. O movimento negro, por exemplo, condenou a associação automática da imagem à situação de pobreza e abandono. Aí vão as observações:

1. Landau publicou texto neste sábado (6), no Facebook, no qual revela ter encontrado o menino e a mãe dele cinco dias após o réveillon. O fotógrafo afirma que ele e o garoto escolheram “manter esse momento privado, assim como nossa relação”. Pede também para que as pessoas e a mídia compreendam e os respeitem, em texto com jeito de comunicado de assessoria de imprensa de celebridades. Como tenho pouco ou nenhum interesse pelo momento do encontro dos dois, concordo e respeito a decisão. Landau, no entanto, deve a todos a parte que importa: quem é o protagonista da foto, como vive, como é a sua família. Jornalismo serve principalmente para desmistificar o senso comum, clareando questões de interesse público. Landau não conseguiu as informações em Copacabana, em meio aos fogos e à aglomeração, o que é compreensível. Mas deveria divulgá-las agora que as têm. O fotógrafo é colaborador da Folha no Rio e, sempre que acionado, foi um ótimo profissional. A observação se reserva a esse momento específico;

2. Imagino que Landau não tenha percebido que aquela era uma grande foto no momento em que ela foi realizada. Talvez por isso ele também não tenha conseguido as informações com o menino. A imagem, aliás, não teria se tornado tão popular se tivesse sido publicada nas redes sociais do fotógrafo da maneira como foi enviada à Reuters. O arquivo original, em cores, é escuro e tem pouco contraste entre as pessoas de branco e o garoto. Após a explosão da polêmica, fui checar a foto no sistema da Folha, mas demorei a encontrá-la, justamente porque as camadas da imagem em cores estão bem mais misturadas. Foi só quando a cena foi divulgada em preto e branco, bem editada, que ganhou força. O pós-tratamento fez com que as contradições fossem ressaltadas e, ainda que Landau não admita, há de alguma maneira a opinião do fotógrafo na imagem;

A fotografia enviada pelo fotógrafo Lucas Landau à Reuters

3. Ao conversar com o designer e fotógrafo Fabio Messias sobre a foto de Copacabana, ele lembrou de uma imagem muito importante para o fotojornalismo, feita pelo alemão Thomas Hoepker em 11 de setembro de 2001. Publicada cinco anos depois do ataque terrorista, a cena mostra um grupo de jovens conversando normalmente enquanto as Torres Gêmeas queimam ao fundo. As pessoas retratadas logo trataram de acusar o fotógrafo, membro da Magnum, de escolher um registro que não mostrasse o estado de choque em que estavam no momento. Por outro lado, muitos, como o crítico Frank Rich escreveu no “The New York Times”, viram ali a representação do “fracasso dos Estados Unidos para aprender lições profundas desse dia trágico, para mudar ou se reformar como nação”. “Os jovens da foto do Sr. Hoepker não são necessariamente insensíveis. Eles são apenas americanos”, afirmou. Fotografias são reducionistas porque alguém escolheu registrar uma situação em vez de outra. Em última instância, como prega o curador espanhol Joan Fontcuberta, fotografias são mentiras. Exageros à parte, é curioso notar como um suporte tão ligado à captação da realidade, tão tomado como um sinal de evidência, pode ser enganador e aberto a visões distintas. Ser reducionista é uma característica inerente à fotografia;

4. O reducionismo apontado no item anterior é ainda maior no caso da foto do garoto de Copacabana porque se trata de apenas um fotograma. A ideia de que tudo pode estar contido em uma só fotografia é uma falácia. Nenhuma história está completa em apenas uma fotografia. Defendo, cada vez mais, que as histórias têm de ser contadas com múltiplas imagens, o que faz com que as narrativas sejam mais complexas e menos literais. A pedra fundamental do fotojornalismo está, tradicionalmente, na busca por uma fotografia que capte a essência de um momento –é o conceito de instante decisivo, já desgastado e em descompasso com o tempo atual, de câmeras que registram tudo a todo momento. É necessário rediscutir o modelo da foto única, questionando se ele atende ao que o leitor precisa para entender uma questão. Se Landau não tinha condições de dar informações objetivas de quem era o menino, poderia ter divulgado a sequência de fotos que ocorrem antes e depois do quadro agora conhecido. Poderíamos, talvez, saber se ele estava acompanhado de algum amigo ou familiar naquele dia e dissipar ao menos essa dúvida.

Feliz ano novo a todos.

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