Oscar de Roger Deakins por ‘Blade Runner 2049’ foi um Oscar honorário

DAIGO OLIVA

Roger Deakins enfim ganhou um Oscar. Venceu depois de 14 tentativas, após 23 anos desde a primeira indicação ao prêmio. E, embora tenha recebido a estatueta pela direção de fotografia de “Blade Runner 2049”, ele mais parecia ter recebido um Oscar honorário.

Ao ser anunciado vencedor, o britânico foi muito aplaudido. Um Deakins atônito foi até o palco, coçando a cabeça sem parar. Quando conseguiu dizer algo, 2049 virou passado. Fez uma leve piada para comentar a demora em ganhar um Oscar –“Realmente amo meu trabalho, e tenho feito isso há muito tempo, como vocês podem ver”– e lembrou que trabalha há 30 anos com parte da equipe da sequência de “Blade Runner”.

Na plateia do Dolby Theatre, estava, claro, Denis Villeneuve, diretor do longa premiado. Com o canadense, Deakins fez outros dois filmes –“Sicario” e “Os Suspeitos”, todos indicados ao Oscar de melhor fotografia. A parceria com o cineasta, no entanto, é muito menor do que a com os irmãos Coen, com quem trabalhou 11 vezes. “Fargo”, “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, “O Homem que Não Estava Lá”, “Onde os Fracos Não Têm Vez” e “Bravura Indômita” são as obras com as quais conseguiu indicações, mas há outros filmes memoráveis com a dupla, como “Barton Fink: Delírios de Hollywood” e “O Grande Lebowski”.

Em 2008, conseguiu perder a estatueta mesmo concorrendo com dois filmes ao mesmo tempo —a divisão dos votos pode ter diluído as chances. “Onde os Fracos Não Têm Vez” venceu o Oscar de melhor filme, mas Deakins foi esnobado. “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”, considerado por muitos sua obra-prima, era o outro longa. Robert Elswit, que desbancou Deakins com “Sangue Negro” naquele ano, propôs a criação da categoria “Filmes fotografados por Roger Deakins”.

Embora o britânico sempre diga que o trabalho de um diretor de fotografia não deve de ser notado, ele venceu o Oscar com um longa cujo visual é o principal chamariz. Segundo a filosofia do fotógrafo, seu trabalho não é para criar imagens incríveis, mas imagens que tenham um propósito. Muitos cinematógrafos o consideram um “naturalista”, embora seja equivocado dizer que ele é um diretor que trabalha apenas com luz natural. Detalhista e controlador, ele não projeta as cenas para que a luz chame a atenção, mas para que seja exata.

Deakins contou à revista “Variety” que, certa vez, numa conversa na Sociedade Americana de Cinematógrafos, ouviu elogios ao trabalho em “Um Sonho de Liberdade”. Os colegas, contudo, comentavam que nunca votariam no filme porque era todo feito com luz natural. O britânico apenas riu. Em “Blade Runner 2049”, insistiu em filmar o que era possível na câmera, sem recorrer facilmente à pós-produção para, por exemplo, obter a cor desejada. Também na sequência do longa de 1982, Deakins estudou a maneira como a luz entrava em prédios de arquitetura brutalista, uma das referências pesquisadas para o filme.

Ainda que o Oscar neste ano parecesse óbvio após 14 indicações, ele viu Rachel Morrison ser a primeira mulher indicada ao prêmio de melhor fotografia. A menção ao ótimo trabalho da cinematógrafa de “Mudbound” foi importante para a discussão em torno da igualdade de gênero em categorias técnicas e chamou a atenção da imprensa. Mas, desta vez, o ex-coitado venceu.

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