Só tara por fogo explica escolha da melhor foto do ano no World Press Photo

O que era ruim conseguiu ficar pior. Após divulgar uma das mais fracas seleções de premiados dos últimos anos, o World Press Photo anunciou nesta quinta (12) o vencedor na categoria foto do ano. A ganhadora, do venezuelano Ronaldo Schemidt, mostra um manifestante contrário a Nicolás Maduro em conflito com a polícia. Com uma máscara de gás,  ele corre enquanto seu corpo está em chamas.

Só a tara por fogo explica a escolha. Espetaculosa, a imagem impressiona na mesma velocidade com que é esquecida. Tem impacto visual, mas não apresenta contexto —a foto poderia ter sido feita tanto em Caracas quanto num protesto nos arredores da rodoviária do Tietê, em São Paulo. Há, para ser justo, mais do que o fetiche por chamas. O registro de Schemidt remete à imagem do monge budista Thich Quang Duc, que jogou gasolina sobre o próprio corpo e se queimou em frente a dezenas de espectadores, num protesto contra o governo vietnamita nos anos 1960.

A imagem feita por Malcolm Browne, porém, mostra uma pessoa parada, em posição de meditação, enquanto o corpo se torna cinzas. Não há gritos nem melodrama, e a foto choca porque exibe alguém derretendo em silêncio. É diferente do maneirismo pirotécnico do registro vencedor do maior prêmio do fotojornalismo neste ano.

Pela primeira vez, o World Press Photo anunciou o principal ganhador somente meses após a divulgação dos premiados nas demais categorias —naquele momento, também publicou a lista dos seis finalistas a foto de 2017.

Outro fator que pode ter influenciado a escolha é a intenção dos organizadores de chamar a atenção para temas importantes do noticiário. A Venezuela, mergulhada em caos político e econômico, encaixa-se nessa condição. Também atende a esse requisito a guerra no Iraque, cenário de duas imagens finalistas do irlandês Ivor Prickett. Em uma delas, um combatente segura um menino nu, dormindo, numa posição comum a crianças de qualquer lugar do mundo. Se a composição estética não é das melhores, a imagem de Prickett traz humanidade a uma paisagem desoladora.

Havia ainda a crise dos rohingyas, representada pela foto do australiano Patrick Brown. Outros trabalhos, melhores que o de Brown, como os do canadense Kevin Frayer e do chileno Tomás Munita —este nem ao menos mencionado pelo júri—, também foram esnobados.

Se a ideia era premiar o instinto, havia opções mais dignas. O atropelamento durante um protesto em Charlottesville contra grupos supremacistas era mais impactante, assim como os registros de David Becker, feitos minutos após um atirador abrir fogo contra o público de um festival de música em Las Vegas.

A escolha do júri parece mais absurda quando se sabe que uma imagem similar à de Schemidt, feita pelo venezuelano Juan Barretto, com o mesmo manifestante em chamas, fotografado no mesmo local, também foi premiada. Mas ficou em terceiro lugar na categoria Spot News/Stories.

A distância entre a fotografia do ano e o terceiro lugar de uma das categorias do World Press Photo parece ser grande demais.

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