Ninalee Allen Craig, protagonista de polêmica foto dos anos 50, morre aos 90

DAIGO OLIVA

Quinze homens observam uma mulher caminhar por uma calçada de Florença. Ela aparenta estar amedrontada. Com uma das mãos, segura uma bolsa e uma pasta e, com a outra, parece esconder o corpo com o xale. Próximo a ela, um homem faz o bico de fiu-fiu, enquanto outros dois, sentados em uma moto, riem. Jovens e velhos, vestidos com roupas sociais, observam a passagem da moça.

A cena sugeriria um corredor polonês cheio de testosterona –um registro de assédio. Mas, segundo a protagonista da foto, Ninalee Allen Craig, morta aos 90 anos no último dia 1º, a cena foi interpretada ao longo dos anos de “maneira sombria, embora fosse o oposto”. “Eles estavam se divertindo, e eu também”, disse Ninalee, à época uma professora americana em férias na Itália, ao jornal britânico “The Guardian”, há três anos.

“Não vejo nada de errado com um assobio galanteador. Era claro que eu era de um outro país e, por ser alta, era objeto de curiosidade. Eles estavam apenas mostrando sua admiração.” Nem mesmo o gesto do homem próximo a ela, com a mão na virilha, considerado por muitos como grosseiro, teria a ofendido. “É quase um sinal de boa sorte para os italianos, deixando claro que as jóias da família estavam intactas.”

Nem todos concordam com a interpretação de Ninalee. Muitos enxergam a imagem como representação de assédio, vitimização e poder sobre as mulheres. Em novembro, um restaurante na Filadélfia retirou a foto do local após reclamações de clientes. Em algumas reproduções da foto, o homem do gesto rústico foi retocado.

A imagem foi feita por outra americana. Em 1951, no Hotel Berchielli –“custava US$ 1 por noite”–, Ninalee conheceu a fotógrafa Ruth Orkin, que convidou a moça para fazer um ensaio pela cidade. Os registros foram publicados no ano seguinte numa edição da revista Cosmopolitan sob o título “Não tenha medo de viajar sozinha”, com dicas de viagens para mulheres. A legenda com a foto de Ninalee, segundo o jornal “LA Times”, dizia: “A admiração pública (…) não deve perturbar você. Olhar para mulheres é um passatempo popular, inofensivo e lisonjeiro que você encontrará em muitos países estrangeiros. Os cavalheiros geralmente são mais altos e mais expansivos do que os homens americanos, mas eles não representam nenhum perigo”.

Ruth fez apenas duas fotos da cena batizada de “Garota Americana na Itália”. Depois de realizar o primeiro registro, pediu a Ninalee que repetisse a passagem, sem se dirigir aos homens que compuseram a imagem junto à protagonista. “Só falei com os moços na moto”, disse Ruth ao “New York Times” em 1995. “Gritei para que não olhassem para a câmera.” Tudo durou 35 segundos.

Elas voltaram a se encontrar em Paris, logo após o encontro em Florença, para fazer mais fotos. Continuaram amigas até a morte de Ruth, em 1985, aos 63 anos. Também no depoimento dado ao “Guardian”, Jinx, como Ninalee era conhecida, diz que “a última coisa que você faria era olhar nos olhos daqueles homens e sorrir”. “Eu não queria encorajá-los. Você tem de andar com confiança e manter sua dignidade o tempo todo.”

Além da publicação na revista, a foto de Ninalee na Piazza della Repubblica também se tornou uma propaganda da Kodak na Grand Central Station, principal estação de trem de Nova York. O pôster, diz Ninalee, assustou seu pai. “Ele não tinha ideia de que eu andava pela Itália assim.” Ela morreu em Toronto, no Canadá, após complicações derivadas de um câncer no pulmão.

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