Saída de Iatã Cannabrava da direção do Paraty em Foco ameaça realização do festival de fotografia

DAIGO OLIVA

O texto abaixo foi publicado na edição desta terça (22) do caderno “Ilustrada”.

Após nove anos, Iatã Cannabrava, um dos organizadores do festival de fotografia Paraty em Foco, rompeu a parceria com o fundador do evento, o italiano Giancarlo Mecarelli. Mais importante festival do país na área, o “Paraty” foi liderado por Iatã nos últimos anos. Depois de sua entrada na administração da festa, junto a Luiz Marinho e Marcelo Greco, em 2006, a mostra ganhou forma e relevância. Sob direção do empresário e fotógrafo, o evento cresceu em tamanho e em público e passou a receber importantes nomes nacionais e internacionais, como o americano David Alan Harvey, a canadense Penelope Umbrico e o brasileiro Miguel Rio Branco. Foi também com Iatã que o “Paraty” ganhou o modelo que perdura até hoje, com palestras e oficinas durante cinco dias.

A decisão ainda implica na saída do estúdio Madalena, responsável por toda a produção do festival. Enquanto Mecarelli cuidava da relação institucional com a prefeitura de Paraty (RJ), a empresa de Iatã tratava da estrutura do evento e da obtenção de verbas via de leis de incentivo. A última edição da festa, em setembro, reuniu 6.000 pessoas e custou R$ 1,1 milhão, segundo a organização.

Entre as razões alegadas para o fim da parceria está o custo para realizar um festival em Paraty. Tanto o agora ex-diretor quanto o fundador do evento reclamam dos preços de hotelaria e alimentação na cidade, o que afeta tanto a organização quanto o público. O secretário local de turismo, Wladimir Santander, prometeu responder entrevista por e-mail, mas, até a publicação da reportagem, não o fez. A principal razão da saída de Iatã está na disputa pela marca do evento. Nos últimos anos, ele tentou comprar o nome Paraty em Foco. “Eu estava construindo um festival que não ficaria comigo”, diz o empresário. “Mas tenho certeza absoluta de que quem criou o ‘Paraty’, quem deu cara a ele, quem o configurou, tijolo por tijolo, fui eu.”

Mecarelli, fundador do encontro, conta que Iatã fez duas propostas “malucas” pela marca, algo que “era melhor não ter feito”. “Não quero brigar com o Iatã, mas é muita arrogância dizer que foi ele quem construiu o festival. Não sei dizer por que quis romper. Me mandou um WhatsApp dizendo que era melhor fechar o ‘Paraty’. Recomendou cautela ‘pois a situação do país está feia’.”

O italiano afirma que o festival continuará sendo realizado, agora com rodízio de curadores, o que inclui ele próprio. Para o italiano, o que acabou foi “a gestão Iatã”. Embora Mecarelli assegure a sequência do festival, fotógrafos e curadores que participaram do Paraty em Foco avaliam que, caso não consiga uma outra parceria, dificilmente terá condições de organizar uma nova edição.

Fontes envolvidas com o festival não souberam definir quais eram as funções do italiano no evento e apontam uma desconexão entre o estilo de foto exibido na mostra e o que Mecarelli gostaria de ver. Nas últimas edições, o “Paraty” apresentou nomes mais conceituais, além de artistas de outras áreas, como cinema e performance. O fundador admite que, para ele, a festa estava “fora de foco”, mas rebate os comentários sobre sua atuação. Mecarelli diz que, como diretor artístico, era “exigente” e que “opinava no que não gostava”, além de ter criado uma seleção de portfólios.

Essa não é a primeira vez que Iatã rompe com Mecarelli. Em 2008, o paulistano deixou o festival por divergências com o fundador, mas retornou na edição seguinte. Naquele ano, o italiano produziu o Paraty em Foco ao lado de Luiz Marinho, representante da marca alemã Leica no Brasil, e do fotógrafo Marcelo Greco. Segundo Marinho, a relação terminou após restarem R$ 3 mil do orçamento daquela edição, o que irritou o criador do “Paraty” e o fez resgatar a parceria com Iatã.

Marinho define Mecarelli como uma “figura alegórica”, alguém que criou o festival, mas nunca o administrou. Para ele, mais do que as disputas pela marca —“Num orçamento de R$ 1 milhão, pagar 5% para usar a marca não é nada”—, o fator preponderante para a saída de Iatã é a situação econômica do país. “Todos os apoios e patrocínios estão sendo cortados. O fim do “Paraty” é a falta da lição de casa feita. É a história do Brasil”, afirma ele. “Eles não têm contrato, CNPJ, endereço, é um circo mambembe. O ‘Paraty’ é uma kombi com uma tenda de circo em cima.”

VALONGO

Embora a situação do país esteja feia, Iatã já prepara um novo festival. Programado para o fim de agosto, o Valongo, nome que remete a um bairro no centro de Santos, onde o festival será realizado, seguirá a estrutura do “Paraty”. A curadoria, entretanto, segundo o empresário, não se limitará à fotografia e vai abordar cinema, vídeo e televisão. Iatã dividirá a direção da mostra com a curadora Thamyres Viegas Matarozzi, 28. Ela é filha dos donos da Unimes (Universidade Metropolitana de Santos), que apoia o evento. Além da faculdade, o Itaú, antigo patrocinador do “Paraty” e que pagou R$ 400 mil na última edição, negocia parceria com o Valongo. Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, confirma, mas não descarta seguir patrocinando o antigo festival.

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