Um livro também é uma esquina – Ensaio Palavra-Imagem com Rafael Jacinto

Cassiana Der Haroutiounian

“Quando enfim

fechássemos o mapa

o mundo se dobraria sobre si mesmo

e o meio-dia

recostado sobre a meia-noite

iluminaria os lugares

mais secretos”

trecho do poema de Ana Martins Marques

Para esta edição do Ensaio Palavra-Imagem, convidei o fotógrafo brasileiro Rafael Jacinto – que desde 2018 habita Milão com a família – para ser a imagem e a palavra com seu projeto “Ci vediamo all’angolo“. Depois de muitas caminhadas e pesquisas durante sua estadia na cidade do norte da Itália, ele enxergou em suas esquinas a forma de representar, entender e construir uma relação com a cidade que escolheu para chamar de sua. Dois anos e centenas de esquinas depois, decidiu transformá-las em um livro com dípticos e polípticos a ser lançado pela SelfSelf Books – uma plataforma recém-criada em Milão para alavancar e produzir livros de fotografia por meio de financiamento coletivo. No Brasil, está rolando uma campanha paralela, pelo kickante. Este é um ótimo domingo para estar à deriva nas esquinas do Rafa.

Um livro também é uma esquina.

Coleciono esquinas.
Hábito recente. Comecei há dois anos.
A minha coleção de passos é bem maior.
Caminho à deriva e sempre me perco. Culpa das esquinas.
E se eu tivesse ido pelo outro lado?
O trajeto não importa.
Caminho, penso. Dobro a esquina. Paro.
Como representar uma cidade?
Fotografo.
Esquinas me parecem um bom começo.

Esquinas de uma cidade são monumentos repletos de indícios.
Estéticos, sociais, econômicos, políticos.
São pontos de reflexão.
Caminho e coleciono passos.
Caminhar conscientemente é um gesto político. É uma prática estética.
Fotografo e coleciono esquinas.

Apresentar esquinas em páginas de um livro é como criar dobras no mapa e
aproximar pontos extremos da cidade a partir de indícios visuais.

É uma das tantas forma possíveis de percorrer uma cidade.
Uma das tantas formas possíveis de representar uma cidade.

Ci vediamo all’angolo.