Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Os afronautas estão chegando

Por DAIGO OLIVA

De cada 10 listas de melhores livros de fotografia de 2012, “The Afronauts”, da espanhola Cristina De Middel, aparece em 11.

Não é para pouco. Em muitas vezes, livros de fotografia surgem de excelentes histórias, mas a forma como são narradas e seu resultado gráfico final fica aquém do argumento que as originaram. O processo se torna mais interessante do que as fotos em si.

“Afronauts” não sofre deste mal. A obra é a congruência de um caso fascinante, muito bem recontado, em que as imagens emocionam.

Por volta de 1964, Edward Makuka Nkoloso, professor de ciências na Zâmbia, abandona seu emprego para criar a primeira agência espacial (não oficial) do país africano. A ideia de Nkoloso era enviar à Lua (ou Marte, tanto faz) um foguete tripulado, não só com astronautas, mas também gatos, entrando na corrida espacial entre os EUA e a então União Soviética.

Desnecessário dizer que o projeto nunca foi adiante, mas isso é o que menos importa. Os pedaços que Cristina De Middel juntou a partir de suas pesquisas recriam um homem sonhador, ingênuo, mas, sobretudo, vanguardista e ambicioso.

Além das fotografias, intermediadas por bonitos momentos de quietude, a narrativa é composta também por elementos de memorabília. Há no livro uma carta (real ou não?) do ministro da tecnologia da Zâmbia comentando o pedido de Nkoloso por 700 milhões de libras às Nações Unidas, fotos antigas, mapas e rascunhos de roupas espaciais. As roupas, aliás, são um ponto a parte nesta história. As estampas africanas fazem inveja a muitos editoriais e desfiles de moda.

Para o site espanhol 30y3, Cristina disse: “Como fotojornalista, sempre fui atraída pelas linhas excêntricas de contar histórias, evitando os mesmos assuntos antigos, contadas nas mesmas maneiras antigas. Agora, com meus projetos pessoais, respeito a base da verdade, mas me permito quebrar as regras da veracidade, tentando empurrar o público para analisar os padrões das histórias que consumimos como real“, explica.

No mundo onírico, quando a história é boa, é real.

“The Afronauts” foi editado e publicado de maneira independente, pela própria fotógrafa.

A pequena tiragem se esgotou rapidamente e hoje é praticamente impossível adquirir um exemplar. Fica aí uma sugestão para boas editoras que consigam convencer De Middel a relançar essa bela obra.

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