Interior profundo

DAIGO OLIVA

Muito comum no início do século 20, o recurso da fotopintura era largamente utilizado para tornar mais “reais” os retratos em preto e branco que povoaram os álbuns de família de época.

Ali, imperfeições eram corrigidas e roupas inventadas para eternizar entes mortos, dos quais, muitas vezes, a única recordação era uma fotografia.

Dentre os muitos artistas da fotopintura, o cearense Mestre Júlio Santos se destacou e foi além da técnica tradicional. Com o surgimento da fotografia digital, adotou computador e Photoshop. Para ele, embora as tintas sejam virtuais, a essência da fotopintura permanece inalterada.

O trabalho de Mestre Júlio ganhou recentemente a exposição “Interior Pronfundo”, que reuniu 120 imagens, entre originais do acervo do artista, daguerreótipos, fotos restauradas e fotopinturas recentes. Junto às restaurações, o artista criou uma série de retratos de grandes fotógrafos brasileiros, entre eles Cristiano Mascaro, Claudia Andujar, Nair Benedicto, Thomaz Farkas e Carlos Moreira.

A exposição esteve em cartaz de agosto a outubro deste ano na Pinacoteca, e agora encontra-se no Centro de Fotografía de Montevideo, no Uruguai, onde segue até fevereiro de 2013.

Diógenes Moura, que junto a Rosely Nakagawa é um dos curadores de “Interior Profundo”, escreveu sobre Mestre Júlio e sua obra para o Entretempos.

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“A fotopintura está relacionada com os signos do tempo.

De um lado a espera, o passado. Do outro lado, o futuro.

Mestre Júlio Santos trabalha para o futuro, faz questão de deixar claro.

Trata a fotografia com a densidade que o tempo exige. É desesperado pela fotopintura.

Só retira do cavalete/computador uma fotografia quando tem certeza absoluta que o cliente ficará mais satisfeito que ele.

Ali, entre o santuário e o espelho. Se não gosta, elimina e faz outra.

É capaz de enviar duas cópias para o mesmo retratado. É incapaz de descartar um rosto, um olhar, um gesto.

Mas o que o artista faz com todos esses personagens que passam, param e tomam seus rumos diante dos seus olhos, naquele pequeno estúdio montado em uma sala de sua casa em Fortaleza, no Ceará?

‘É uma procissão imensa que vou arrastando junto comigo'”.

– Diógenes Moura é escritor e curador de fotografia da Pinacoteca

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Interior Profundo
Fotopinturas de Mestre Júlio Santos

Galeria do Centro de Fotografia de Montevidéo
De segunda a sexta, das 10h às 19h
Sábados de 9h30 às 14h30
Calle San José, 1360 – Tel. + (598 2) 19501219
cdf@imm.gub.uy

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O curta-documentário “Câmara Viajante”, dirigido por Joe Pimentel, que retrata o trabalho dos fotógrafos de romaria e, também, de Mestre Júlio, é um emocionante registro realizado en 2003. São apenas 20 minutos que valem a pena e você poder ver aqui.

Comentários

    1. Olá, Junior.

      O Mestre Júlio começou o processo de fotopinturas da maneira tradicional, com pincéis e tintas, mas abandonou essa forma em favor do uso do computador e do Photoshop, que é como faz atualmente.

      Um abraço

  1. muito bom essa materia eu tenho varias fotos pintadas minha e de meu irmão e consegui resgatar fotos para os parentes conhecerem avós e bisavos ,justamente esse tipo de foto e perfeitas com mais de 120 anos que foram pintadas

  2. Nossa, isso me lembra os quadros das casas de meus avós. As paredes são recheadas de quadros de fotopintura. Acho um máximo! A mais linda é da minha mãe nenê, o rapaz caprichou muitissimo na foto e hj precisa de restauração para enquadra-la outra vez.

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