A vida como um trem em movimento

DAIGO OLIVA

Imagine uma vida sem amarras, pulando de trem em trem, sem direção.

Vivendo a maior parte do tempo em trânsito, a beira de trilhos, desconfortável, mas, ainda assim, livre.

O americano Mike Brodie acaba de lançar “A Period of Juvenile Prosperity”, livro de fotos que narra sua experiência de 10 anos viajando clandestinamente pelos EUA entre vagões e compartimentos de carga.

Ao atravessar 46 estados e mais de 80 mil quilômetros, Brodie registrou amigos, namoradas, famílias e desconhecidos que compartilhavam o mesmo modo de viver.

“Não era muito intencional, não era um projeto de arte, eu estava apenas indo, como uma ave-maria em uma partida de futebol. Jogando e vendo o que acontece”, escreveu o fotógrafo à revista americana Slate.

Os registros, feitos entre 2006 e 2009, foram descobertos pela galeria M+B, a mesma de nomes como Alex Prager, e resumem o pequeno período de atividade artística de Brodie.

Apesar de ter vencido o prêmio Baum para fotógrafos emergentes em 2008 e todo o frenesi em torno das imagens de “Juvenile Prosperity”, o artista trabalha atualmente como mecânico.

Vai entender.

“A Period of Juvenile Prosperity” traz de volta o espírito vagabundo, solto e frenético da literatura de obras como “On The Road”, onde pequenos e silenciosos gestos do cotidiano furioso dos jovens caroneiros contrastam com a velocidade dos trilhos.

É na quietude em que os retratados se preparam para “embarcar” onde se guarda a explosão de um trem em movimento.

Assim como a vida.

O material pode ser visto até 6 de abril na galeria Yossi Milo, em Nova Iorque.

Essa postagem nasceu de uma dica da artista Nati Canto. Tem sugestões? Escreve pra gente: entretemposblog@gmail.com

Comentários

  1. Confesso que, apesar de adorar o tema e a ideia, nao me emocionou muito. Tirando as duas primeira fotos, as outras esteticamente, nao me agradam – a principio achei muito proximas de editoriais alternativos de moda e viagem.
    Mas como eh a segunda vez que eu estou vendo essas imagens (a primeira foi no hypeness), eu vou tentar ver com calma no final de semana, pra ver se eu mudo de opiniao.
    Ah, bom saber que voces aceitam sugestoes. 🙂

    1. dá para compreender que alguém veja essas fotos próximas do que é um editorial de moda.

      afinal, é o que as marcas fazem há anos: se apropriam de uma estética libertária, largada e descompromissada para vender seus produtos…

      abraço

      1. Humm. Sim as empresas e marcas fazem isso ha anos. É verdade. E o fato do ensaio me remeter a isso, não é necessariamente ruim, justamente por isso.

        É que eu acho o tema tao legal e o cara teve 10 anos mergulhado nele que o resultado me pareceu pouco.

        De novo talvez esteja sendo injusto, vou tentar ver com calma no fds.

    1. Também acho o trabalho incrível, ainda mais se contar que o cara viveu de verdade a experiência dos trens e largou qualquer possibilidade de viver de arte para ser mecânico.

      É real.

      Mas pensa comigo, se colocar um logo de marca de jeans no topo de algumas das fotos passa fácil como propaganda.

      Uma bonita propaganda, aliás.

  2. Como já comentado aqui, é engraçado que o estilo de vida de um cara libertário é molde justamente para o oposto… Além disso, o fato do cara ter deixado de fotografar após “sair dessa vida” também tornam as imagens ainda mais significativas. Parabéns ao blog por ter trazido estas fotos com a respectiva história!

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