Bob Wolfenson em baixa temporada

DAIGO OLIVA

Sobre uma parede pintada de rosa, um quadro com a figura de um cavalo se destaca acima de uma fileira de cadeiras vermelhas e amarelas.

Ao lado, uma escada de madeira escura contorna toda a imagem até o andar superior. Não há ninguém na fotografia.

Minúscula, no canto esquerdo, uma placa com a palavra “recepção” dá a pista dos lugares retratados em “Belvedere”, novo livro de Bob Wolfenson.

Cambuquira, Minas Gerais, foto de 2013

Durante a estadia do fotógrafo numa estância em Caxambu, no caminho entre São Paulo e Minas Gerais, Wolfenson percebeu que a atmosfera daqueles espaços lembrava as viagens que fazia com sua família, ainda criança, pelo interior paulista.

Mesmo sem reencontrar exatamente os mesmos lugares, o fotógrafo detectou ali o clima de “baixa temporada”, classificação que se tornaria o primeiro nome do ensaio, depois rebatizado de “Belvedere”.

“O trabalho não é jornalístico, nem é um roteiro. A fotografia é fragmento e, no meu caso, ficção construída a partir de elementos da realidade. Na verdade, o clima de minha infância foi só um insight pra o ínicio do trabalho”, explica Wolfenson.

Acima, Águas de Lindoia, interior de São Paulo. Abaixo, Caxambu, MG

Acima, fotografia feita no Colorado, EUA.

“Minha infância nestas estâncias era só acolhimento e alegria, isenta de acidez no olhar, pelo menos vista assim, em retrospectiva. Me lembro desta viagens serem uma grande celebração familiar; iam meus tios, tias, primos, irmãos”, continua.

Embora seja a alegria familiar a gênese do ensaio, “Belvedere” carrega em suas imagens um forte sentimento de solidão. Seja nas fotografias feitas na Croácia, EUA ou em Águas de Lindóia, a imensa maioria dos quadros retratam espaços vazios.

Mais do que vazios, predomina a estética com vocação involuntária pelo kitsch, cafona e, como o próprio fotógrafo assume no prefácio do livro, com a alma presa à classe média.

“Ser classe média é ter reverência pelos ritos nos quais fui gerado e cresci. Não abandonar, em função da cultura, o gosto pelas coisas genuínas, não abraçar o ‘bom gosto'”, define.

Acima, quarto em Serra Negra. Abaixo, Caxambu, Minas Gerais.

O olhar nostálgico está presente também no projeto gráfico da publicação. “Belvedere” tem o formato de um álbum de fotografias de família -a leitura é feita na horizontal, passando as páginas de baixo para cima, e o material da capa imita o estilo de livros antigos.

A nova peça é uma quebra em relação a “Apreensões”, lançado em 2010. As armas, drogas, brinquedos e animais documentados na obra anterior são substituídos pelo olhar introspectivo que o fotógrafo construiu a partir de partículas de sua memória.

Os editorias de moda, retratos de celebridades e ensaios de nus femininos, pelos quais Wolfenson ficou largamente conhecido, conferiu ao fotógrafo a versatilidade para atravessar diferentes temas e formas de fotografar com grande naturalidade.

“Advogo a ideia de estar em trânsito e, talvez, eu seja um caso raro. De fato, não seria este fotógrafo do Belvedere se não fosse estes outros todos e vice-versa”.

Caxambu, MG, em 2011

“Me enfastio rapidamente do que venho fazendo e quero mudar, encontrar outros sujeitos/objetos para o trabalho. Adoro o clima dos trabalhos comissionados, gosto do barulho, das viagens, dos encontros, das modelos, stylists, cabeleireiros e, obviamente, das mulheres peladas (risos)”.

O leitor encontrará o próximo Bob Wolfenson presente em dois novos projetos. O primeiro é um recorte dos quase 45 anos de sua carreira, com curadoria de Diógenes Moura e, o outro, já em andamento, se chamará “Nósoutros”.

“São pessoas pelo mundo, um segundo antes de atravessarem a rua”.

Aguardamos o próximo passo.

São Lourenço, Minas Gerais, em 2011

“Belvedere” está exposto na Galeria Millan, em São Paulo, até 28 de setembro. Para saber mais é só clicar aqui.
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