Um aviso de que obras foram retiradas de uma mostra pode ser obra de arte?

DAIGO OLIVA

Em meio às obras de 13 artistas holandeses e suíços que ocupam um dos andares do edifício do CentroCentro Cibeles, em Madri, um trabalho pode despertar a curiosidade –ou a ira– de espectadores. Numa parede pintada com tinta escura, um papel sulfite avisa: “Estimado visitante, por razões de segurança todas as fotos foram retiradas. Obrigado pela sua compreensão”.

São metros e metros de parede e apenas o papel branco pendurado, com letras tediosamente pretas, que comunica a falta –ou a presença– da obra. O misterioso informe do holandês Jan van der Til integra a mostra “Começa pelo Princípio… E Segue até Chegar ao Final: Então Você Para”, com curadoria de Hester Keijser e parte da 21ª edição do festival PHotoEspaña. Com a exposição, a organizadora questiona os limites da fotografia e da realidade e, por isso, utiliza uma frase de “Alice no País das Maravilhas”, clássico da literatura de fantasia, para nomeá-la.

Um grupo de jornalistas pergunta ao artista se aquilo era mesmo uma obra de arte. Jan van der Til, homem corpulento em roupas um tanto apertadas, acena com a cabeça. Com a frase, explica ele, o trabalho busca provocar o espectador a refletir sobre casos de censura na arte, como quando a obra “Presos Políticos na Espanha Contemporânea”, de Santiago Sierra, foi retirada da feira Arco, em fevereiro.

A série de 24 retratos do artista espanhol coloca Oriol Junqueras, Jordi Sànchez e Jordi Cuixart, acusados de rebelião contra o governo espanhol devido ao processo de independência da Catalunha, como presos políticos. Ainda que as imagens sejam pixeladas, os rostos dos personagens são reconhecíveis. A direção da Arco teria pedido à galeria Helga de Alvear, que representa o artista, que recolhesse as fotografias antes mesmo da inauguração da feira “para evitar polêmicas”. Até que a obra fosse completamente substituída, a parede vazia do stand foi uma dos locais mais procurados pelos visitantes da feira de arte.

Der Til, no entanto, diz que “Livro 11”, como a peça foi nomeada, não se dedica especificamente ao caso de Sierra. Além de outros exemplos de censura, o holandês também vê a obra como uma referência ao fenômeno das fake news. “Você olha a obra e aceita como verdade, mas precisa de algo a mais para se assegurar disso”, afirma. “Nos dias de hoje, acredito que não se pode tomar tudo como verdadeiro. Você precisa fazer suas próprias pesquisas, como os jornalistas fazem.”

Quem for dedicado e fizer sua própria pesquisa, encontrará uma surpresa no site do festival. No link dedicado à mostra, há uma lista de 255 perguntas sobre a instalação. Em ordem alfabética, Der Til pergunta: “a obra é abstrata?”, “a obra é agoniante?”, “a obra é cínica?”, “a obra está presente?”, “a obra está terminada?”. Segundo o artista, embora as perguntas sejam objetivas, muitas delas são difíceis de serem respondidas. Hester Keijser, curadora da mostra, diz que o trabalho do holandês se encaixa dentro da “ambiguidade da fotografia”, que muitas vezes toma algo ficcional como verdadeiro –ou o contrário.

No espaço expositivo, o espectador encontrará apenas um pequeno perfil do artista em um dos extremos da parede, dentro do mesmo modelo feito para os outros participantes da exposição. Ali, não há explicação específica sobre a obra. As pessoas que trabalham no CentroCentro Cibeles também não foram orientadas a contar o que é o trabalho. “Começa pelo Princípio… E Segue até Chegar ao Final: Então Você Para” fica em cartaz até 16/9 e exibe trabalhos de Ruth van Beek, Lana Mesic e Ester Vonplon, entre outros.

O jornalista viajou a convite do festival PHotoEspaña.

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