Jason Fulford exibe em Madri fotos que flutuam em oceano de ambiguidades

DAIGO OLIVA

Uma onda azul percorre a parede com fotos de Jason Fulford. No centro cultural Fernán Gómez, onde está montada a exposição coletiva “Grande Final Mundial”, as imagens do fotógrafo americano flutuam “num oceano de ambiguidade”.

Fulford exibe em Madri um recorte de um de seus trabalhos mais conhecidos e celebrados, “The Mushroom Collector” (2010), no qual analisa o desenvolvimento do olhar a partir de fotos de cogumelos. As imagens, enviadas por um amigo do artista dentro de um envelope, foram encontradas em um mercado de pulgas em Nova York.

Quanto mais olhava para as fotografias, mais Fulford enxergava conexões com outras imagens que estava produzindo na mesma época. “Percebi que os cogumelos estavam crescendo na minha cabeça e afetando a maneira como via o mundo”, diz o artista, presente durante a abertura da mostra no festival PHotoEspaña.

“O trabalho é, basicamente, sobre o desenvolvimento da observação. Como o que você vê agora afeta a olhar do que vem a seguir.” Diferentemente dos outros artistas da exposição, o jogo fotográfico de Fulford não é tão explícito. Mais conceitual, trabalha no inconsciente das associações imagéticas, em como as fotografias se agrupam, e como podem ser vistas de diversas maneiras –daí ter pintado, de fato, uma onda azul na parede da mostra, perpassando as fotos exibidas.

Essa parece ser uma obsessão do americano. Em 2014, ao lado de sua mulher, a ilustradora Tamara Shopsin, Fulford lançou “This Equals That”, fotolivro dirigido a crianças. Ali, os pequenos entendem didaticamente como conectar fotografias, seja por meio das cores, das formas ou pelas suas relações mais literais –a foto de um pescador está ao lado de uma banca de peixes, por exemplo.

Em ano de Copa do Mundo, a exposição “Grande Final Mundial” faz com que cada fotógrafo corresponda a uma parte do mundo. “São os melhores jogadores que tenho”, diz a espanhola Cristina de Middel, curadora da mostra cuja programação visual remete às linhas de uma quadra esportiva. Enquanto Fulford é a fotografia americana, o mexicano Miguel Calderón representa o universo latino-americano. Há ainda Ana Hell, com dezenas de imagens sobre o corpo. A espanhola pede a amigos para que se contorçam até se transformarem em criaturas bizarras e cômicas.

Também discorre sobre o corpo, mas com abordagem distante de Ana Hell, a dupla australiana Prue Stent e Honey Long. Pedaços de corpos femininos são envoltos em tecidos e fotografados em paisagens desérticas, tudo em tons azuis e rosas. Da Ásia, o cingapuriano Robert Zhao apresenta uma série de fotos de pegada botânica, como faziam os naturalistas do século 18.

Vêm da África os trabalhos mais interessantes da exposição. Em “A Sala de Aula”, o professor marroquino de arte Hicham Benohoud pede a seus alunos para que interrompam suas tarefas e posem com elementos encontrados na sala, enquanto os outros colegam permanecem realizando as lições. Assim, Benohoud resignifica objetos cotidianos ao mesmo tempo em que explora a relação professor-aluno e cria situações surreais. A série realizada desde a década de 90 guarda conexões conceituais próximas a outro trabalho do marroquino exibido na mostra, no qual moradores criam buracos em suas casas e os ocupam com o próprio corpo.

“Nao sei como ele convenceu essas pessoas a quebrarem suas casas”, diz, rindo, a curadora Cristina De Middel. “Só por isso já me fascina.” “Grande Final Mundial” fica em cartaz no centro cultural Fernán Gómez, em Madri, até 29 de setembro.

O jornalista viajou a convite do PHotoEspaña.

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