O que faz uma fotografia ser boa? Respostas…

Muitos e-mails recebidos e muitos comentários no blog. Bem bacana o retorno sobre essa pergunta que parece ser simples, mas é uma tarefa complicada: o que faz uma fotografia ser boa? Continuamos sem saber.

Seria uma pretensão gigantesca achar que chegaríamos a alguma conclusão. Ainda assim, o Entretempos destaca argumentos e considerações que podem nos levar a métodos objetivos de leitura de imagens, um resultado proveitoso.

Todas as respostas óbvias, que acrescentam pouco ao debate, foram excluídas. Não me parece um avanço dizer que uma foto é boa quando “sensibiliza os sentidos de uma pessoa”, ou ainda que “o bom fotógrafo e fotografia são aqueles em que ambos se equilibram numa captação de essência/pureza”.

Ninguém aqui ignora as interpretações subjetivas. Mas como definir o que sensibiliza os sentidos ou o que é a captação da essência/pureza? Não dá.

As duas metades do blog passaram pela editoria de fotografia da Folha. Ali, a função básica é o exercício ininterrupto de selecionar imagens. Sem critérios objetivos, diante de um número enorme de imagens, é impossível trabalhar.

É claro que as sensações oferecidas pelas fotografias influenciam demais no julgamento de cada um. A leitora Fernanda L. lembrou de uma frase do fotógrafo Eddie Adams, ganhador do Pulitzer, estampada no Newseum, o museu do jornalismo: “Se o faz rir, se o faz chorar, se arranca o seu coração do peito; isso traduz uma boa fotografia”. Verdade. Porém, sem valores analíticos diretos não se consegue, por exemplo, editar um jornal diário.

A artista Nati Canto, 31, que já passou aqui pelo blog, respondeu com outras questões: “Boa para quê? Para vender? Para exibir em museus? Para exibir para os amigos? Para mim mesma?”. Fotografias também têm objetivos, não é? Novas perguntas podem ser um bom caminho inicial. Refletir as metas das imagens também é um ótimo método de leitura.

No jornal, a meta primária é clara: a notícia. Se a fotografia consegue transmitir o acontecimento de forma completa –em alguns casos, até mesmo sem apuro técnico ou estética refinada–, ela pode ser uma foto boa. Não é o ideal, mas o objetivo desse tipo de imagem é contar um fato jornalístico.

A funcionária pública Teresa Cristina Crosato, 41, define bem as finalidades: “Se for de comida, a foto boa é aquela que te dá vontade de comer”.

Assim como registros de arte englobam outros interesses. Que tipo de estética a imagem mostra? Qual seu potencial mercadológico? Incorpora modismos técnicos e conceituais? A quem esta foto interessa? Sobre o que ela fala? Vai perdurar? As perguntas e contextos sobre uma obra são intermináveis.

O consultor financeiro Avelino Ignacio “Budu” Garcia, 59, lembrou que uma foto boa “depende também do autor da imagem. Seu olhar será mais crítico para as minhas fotos do que para as do [Sebastião] Salgado”. Gostei muito.

É fato que quando aparece o trabalho de um autor conhecido ou cuja obra admiro, tento entender com mais paciência o diálogo que ele quer estabelecer.

Óbvio que uma assinatura não leva a nada, mas admito que, em algumas vezes, um trabalho mediano de um fotógrafo com passado glorioso faz com que a gente seja mais relaxado na hora de analisá-lo. Às vezes é o contrário…

Muita gente levantou a bola da qualidade técnica. Controle de condições de luz, enquadramentos, ângulos. Tudo isso foi muito valorizado. Mas, nessa época atual em que contexto vale mais do que técnica, será que esse ainda é um ponto primordial? Vejo as fotos de Terry Richardson e tenho dúvidas…

E nem é preciso recorrer a exemplos de fotógrafos. O leitor João Debs afirma que “a foto popularmente ‘boa’ exige apenas que o assunto seja relevante para o observador, independente da estética, ética e, sobretudo, de técnica”.

Concordo. Alguém aqui já fotografou um casamento, um batizado, uma festinha de criança? Mais do que a posição do flash, da abertura da lente e de qualquer outro recurso, a noiva, o pai da noiva, a mãe da criança e o padrinho querem saber se a forma como eles enxergam o mundo está cristalizada na imagem que um profissional contratado fez. O “profissional”, muitas vezes, chancela oficialmente uma visão do cotidiano. Eis uma fotografia boa.

Só que aí voltamos para o mundo louco da subjetividade. Sinal de que o esforço do exercício é válido, mas é praticamente um labirinto em que a gente pensa que achou um caminho e, de repente, volta 12 casas para trás.

O leitor Mauro Biazi disse algo que me agrada muito. “Fotografia boa é aquela que convida o olhar a uma leitura mais envolvida com a imagem”. Às vezes, penso nisso quando saio do cinema. Se o filme me deixou preso naquilo que contou, é uma boa obra. A mesma coisa com as fotos. Se, cada vez que olho uma imagem, ela me pergunta “como você fez?”, “por que você pensou nisso?” e, principalmente, “por que eu não pensei nisso?” , já me ganhou.

No final, há três definições que podem resumir todo esse bla bla bla escrito até aqui. A Erica Valente acha que uma fotografia boa “é quando você fala: ‘Qui linduuu, meu!!!'”, o fotógrafo Felipe Mariano, 31, enviou uma mensagem dizendo que “fotografia boa é aquela que me faz dizer ou pensar um palavrão” e ainda há uma outra explicação no Facebook do André Feltes.

Ao compartilhar a pergunta, Beto Figueroa respondeu: “Já ouvi falar que para uma foto ser boa, precisa de uma feia ao lado. Palavras do mestre”.

Ou melhor, precisa de uma foto ruim ao lado. Fim de papo.

ps. muito obrigado a todos os leitores que participaram e toparam mandar suas respostas. A participação de vocês foi uma surpresa muito agradável.

ps 2. o fotógrafo Felipe Russo nos mandou um link bem legal sobre a questão, com textos de Alec Soth e Sean O’Hagan. É só dar uma olhada clicando aqui.

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Comentários

  1. Sou um fotografo que não vive da fotografia, as faço pelo prazer em fotografar.
    Fotografia registra um momento para “sempre”. Estes momentos podem ser bom ou ruim, ser lindo ou péssimo, podem dizer alguma coisa ou não, pode ser comercial,podem ser técnicas, científicas,artísticas e por ai vai.Existem fotos que tiveram algum tipo de representação, dez,vinte, quarenta anos ou mais.
    A fotografia nasce na mente de quem faz a foto.Os fotógrafos ditos “PROFISSIONAIS” e que bem poucos o são, pois, com essa invasão de maquinas eletrônicas, poucos são aqueles que dominam a maquina e a fotografia. Alguns sabem fotografar mas não domina a maquina, outros dominam a maquina mas, não sabem fotografar, simplesmente vão apertando o disparador e deixam para os outros as correções e escolha do material.
    Eu diria para esse pessoal que publica fotos, e principalmente aqueles que expõem, que numerassem as fotos expostas e que, colocassem uma urna para votação.No formulário estariam todos os números da respectivas fotos e na frente, ÓTIMA,BOA,RUIM,PÉSSIMA. Um campo pedindo para marcar a idade.A idade, serve de referencia par o fotografo ter uma ideia das pessoas que participaram da votação e claro, que leram suas obras. Não existe fotografia BOA ou fotografia RUIM. O que existe são os momentos. Momento em que se fotografou, e o momento de quem as vê.Se colocar dez pessoas par interpretar uma determinada foto, teremos dez opiniões diferente da mesma.

  2. Comprei minha primeira câmera, uma Canon EOS Rebel T3i, há pouco mais de um ano. Desde o dia primeiro de abril de 2014, tenho tirado pelo menos uma foto por dia, tentando utilizar as funções da câmera, aprimorando, muito mais do que a técnica, meu olhar crítico, em busca de cenários escondidos que podem virar boas fotos. Enfim, não é fácil. Fotografar é como escrever. Difícil pra caramba e dá medo de mostrar a outras pessoas. Comparo o trabalho de ajeitar foco, enquadramento e graduação de ISO ao de pegar na caneta e rabiscar o papel. O mais legal desse texto foi saber que, assim como eu, há fotógrafos amadores, no sentido não apenas de não ser profissional, mas sim de amar fazer fotografias.

    Abraço.

  3. Não existe foto ruim e sim observador fora do contexto… Há imagens “horríveis” tecnicamente falando, mas que deixam alguns observadores “babando” e outras, primorosamente técnicas, que deixam muitos “nauseados”. Ilustrando: fotos noturnas de baixíssima qualidade com tema de ovnis, yetis ou estrelas muito distantes (a qualidade não importa, importa a novidade e o que o assunto vai render em discussões) e fotos de altíssimo primor técnico, tipo crianças meigas, pets fofinhos (e outros exemplos que me recuso mencionar, pois a maioria adora, mas provoca enjôo em muitos). A foto é “que nem eu” e o sapato velho – podemos ser ruins para muitos, mas para alguns somos suficientemente bons.

  4. Amo fotografias de show, de certa forma tenho me especializado nelas a medida que fui ouvindo elogios sobre minhas fotos, mas continuo as achando fotos ruins, uma ou outra eu falo “que linda!” mas a maioria falta foco, falta nitidez, falta emoção…quero melhorar, aprimorar, acho que tenho bom olho, mas não me considero fotógrafa, tenho resistência à edição de imagens, não sei usar PS nem LR, uso o Photoscape pra melhorar a nitidez e por a marca d´’agua. Realmente gostaria de críticas e sugestões sobre o que devo melhorar. Amei o texto. Parabéns

    1. Oi Karla! Eu não sei que câmera vc está usando, mas considerando q vc gosta realmente da nobre arte de fotografar, deixo 2 dicas:
      1) Invista numa câmera com alguns recursos manuais e evite, se possível, câmeras com controle automático. Não precisa gastar muito dinheiro não e pode até ser usada… É sua capacidade de “sentir” o ambiente e transferir estes dados manualmente para a câmera que farão a diferença.
      2) Se vc não conhece ainda, dê 1 olhadinha no link a seguir (“Fotografia: Como desfocar o fundo das fotos?”) – este recurso é muito usado em pinturas também e garanto, vai fazer vc sorrir.

      1. poxa Nilton, super obrigada pela resposta, vou olhar o link que vc me indicou. Eu uso uma Rebel Canon T4i com lente 24-70 2.8, sempre uso a cãmera no manual, e nem me oriento pelo fotômetro pois em shows as mudanças de iluminação o deixam doidão. Talvez pela iluminação e zoom perco muito a nitidez e apanho com o foco tbm. Mas ainda hei de atingir a perfeição… super obrigada valeu!

    2. Uma alternativa para a nova geração dos amantes da bela arte de fotografar (ou fotografia digital) – esqueçam os velhos “rolos” de filmes, o tempo e os custos para revelação dos filmes. É possível (e todos sabem disto) usar recursos interessantes da câmera embutida no celular, tablet ou qualquer outro dispositivo “mobile”. Basta ter paciência e persistência para estudar o que é oferecido em seu equipamento e praticar um pouquinho. Se você julgar que os recursos oferecidos pelo fabricante são insuficientes, há alternativas – existe uma boa oferta de “apps” no Google Store, Apple Store, Microsoft Store… Há alguns apps gratuítos e outros não. Alguns fotógrafos gostam ou precisam fazer edição das fotos obtidas (recortes, ajustes de imagem, etc) e, para isto, eu recomendo o Gimp, que é gratuíto. Mas não se esqueçam – edição é recurso que eu comparo à pimenta – quanto menos, melhor.
      P.S. Eu me sentiria mal se apenas indicasse a fotografia analógica para os bons frequentadores deste blog. Eu agradeço aos blogueiros e desejo à todos boas fotos!

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