Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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O que faz uma fotografia ser boa? Respostas…

Por DAIGO OLIVA

Muitos e-mails recebidos e muitos comentários no blog. Bem bacana o retorno sobre essa pergunta que parece ser simples, mas é uma tarefa complicada: o que faz uma fotografia ser boa? Continuamos sem saber.

Seria uma pretensão gigantesca achar que chegaríamos a alguma conclusão. Ainda assim, o Entretempos destaca argumentos e considerações que podem nos levar a métodos objetivos de leitura de imagens, um resultado proveitoso.

Todas as respostas óbvias, que acrescentam pouco ao debate, foram excluídas. Não me parece um avanço dizer que uma foto é boa quando “sensibiliza os sentidos de uma pessoa”, ou ainda que “o bom fotógrafo e fotografia são aqueles em que ambos se equilibram numa captação de essência/pureza”.

Ninguém aqui ignora as interpretações subjetivas. Mas como definir o que sensibiliza os sentidos ou o que é a captação da essência/pureza? Não dá.

As duas metades do blog passaram pela editoria de fotografia da Folha. Ali, a função básica é o exercício ininterrupto de selecionar imagens. Sem critérios objetivos, diante de um número enorme de imagens, é impossível trabalhar.

É claro que as sensações oferecidas pelas fotografias influenciam demais no julgamento de cada um. A leitora Fernanda L. lembrou de uma frase do fotógrafo Eddie Adams, ganhador do Pulitzer, estampada no Newseum, o museu do jornalismo: “Se o faz rir, se o faz chorar, se arranca o seu coração do peito; isso traduz uma boa fotografia”. Verdade. Porém, sem valores analíticos diretos não se consegue, por exemplo, editar um jornal diário.

A artista Nati Canto, 31, que já passou aqui pelo blog, respondeu com outras questões: “Boa para quê? Para vender? Para exibir em museus? Para exibir para os amigos? Para mim mesma?”. Fotografias também têm objetivos, não é? Novas perguntas podem ser um bom caminho inicial. Refletir as metas das imagens também é um ótimo método de leitura.

No jornal, a meta primária é clara: a notícia. Se a fotografia consegue transmitir o acontecimento de forma completa –em alguns casos, até mesmo sem apuro técnico ou estética refinada–, ela pode ser uma foto boa. Não é o ideal, mas o objetivo desse tipo de imagem é contar um fato jornalístico.

A funcionária pública Teresa Cristina Crosato, 41, define bem as finalidades: “Se for de comida, a foto boa é aquela que te dá vontade de comer”.

Assim como registros de arte englobam outros interesses. Que tipo de estética a imagem mostra? Qual seu potencial mercadológico? Incorpora modismos técnicos e conceituais? A quem esta foto interessa? Sobre o que ela fala? Vai perdurar? As perguntas e contextos sobre uma obra são intermináveis.

O consultor financeiro Avelino Ignacio “Budu” Garcia, 59, lembrou que uma foto boa “depende também do autor da imagem. Seu olhar será mais crítico para as minhas fotos do que para as do [Sebastião] Salgado”. Gostei muito.

É fato que quando aparece o trabalho de um autor conhecido ou cuja obra admiro, tento entender com mais paciência o diálogo que ele quer estabelecer.

Óbvio que uma assinatura não leva a nada, mas admito que, em algumas vezes, um trabalho mediano de um fotógrafo com passado glorioso faz com que a gente seja mais relaxado na hora de analisá-lo. Às vezes é o contrário…

Muita gente levantou a bola da qualidade técnica. Controle de condições de luz, enquadramentos, ângulos. Tudo isso foi muito valorizado. Mas, nessa época atual em que contexto vale mais do que técnica, será que esse ainda é um ponto primordial? Vejo as fotos de Terry Richardson e tenho dúvidas…

E nem é preciso recorrer a exemplos de fotógrafos. O leitor João Debs afirma que “a foto popularmente ‘boa’ exige apenas que o assunto seja relevante para o observador, independente da estética, ética e, sobretudo, de técnica”.

Concordo. Alguém aqui já fotografou um casamento, um batizado, uma festinha de criança? Mais do que a posição do flash, da abertura da lente e de qualquer outro recurso, a noiva, o pai da noiva, a mãe da criança e o padrinho querem saber se a forma como eles enxergam o mundo está cristalizada na imagem que um profissional contratado fez. O “profissional”, muitas vezes, chancela oficialmente uma visão do cotidiano. Eis uma fotografia boa.

Só que aí voltamos para o mundo louco da subjetividade. Sinal de que o esforço do exercício é válido, mas é praticamente um labirinto em que a gente pensa que achou um caminho e, de repente, volta 12 casas para trás.

O leitor Mauro Biazi disse algo que me agrada muito. “Fotografia boa é aquela que convida o olhar a uma leitura mais envolvida com a imagem”. Às vezes, penso nisso quando saio do cinema. Se o filme me deixou preso naquilo que contou, é uma boa obra. A mesma coisa com as fotos. Se, cada vez que olho uma imagem, ela me pergunta “como você fez?”, “por que você pensou nisso?” e, principalmente, “por que eu não pensei nisso?” , já me ganhou.

No final, há três definições que podem resumir todo esse bla bla bla escrito até aqui. A Erica Valente acha que uma fotografia boa “é quando você fala: ‘Qui linduuu, meu!!!'”, o fotógrafo Felipe Mariano, 31, enviou uma mensagem dizendo que “fotografia boa é aquela que me faz dizer ou pensar um palavrão” e ainda há uma outra explicação no Facebook do André Feltes.

Ao compartilhar a pergunta, Beto Figueroa respondeu: “Já ouvi falar que para uma foto ser boa, precisa de uma feia ao lado. Palavras do mestre”.

Ou melhor, precisa de uma foto ruim ao lado. Fim de papo.

ps. muito obrigado a todos os leitores que participaram e toparam mandar suas respostas. A participação de vocês foi uma surpresa muito agradável.

ps 2. o fotógrafo Felipe Russo nos mandou um link bem legal sobre a questão, com textos de Alec Soth e Sean O’Hagan. É só dar uma olhada clicando aqui.

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