5 câmeras quebradas e um texto completo

Há pouco mais de 3 semanas, o blog falou sobre “5 Broken Cameras”, filme que concorreu ao Oscar na categoria de melhor documentário.

Naquela vez, uma das metades do Entretempos ainda não havia assistido ao filme, mas mesmo assim se aventurou a falar sobre.

O formato do registro e a curiosa associação entre Emad Burnat, um agricultor palestino que registra os protestos de sua comunidade contra um bloqueio controlado pelo exército de Israel, e Guy Davidi, cineasta israelense e ativista de esquerda, fez com que fôssemos atrás dos responsáveis por “5 broken cameras”.

Abaixo, reproduzimos o texto publicado na edição de hoje da Ilustrada, com a colaboração de Filipe Redondo e entrevista com Guy Davidi.

Agora sim, 5 câmeras quebradas e um texto completo.

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Emad Burnat, um agricultor palestino que vive em Bil’in, na Cisjordânia, comprou uma câmera em 2005 para acompanhar o crescimento de seu filho Gibreel. Quase ao mesmo tempo em que a criança dá seus primeiros passos, o exército israelense constrói uma barreira entre Bil’in e um assentamento de colonos judeus.

As gravações, de caráter familiar, passam a documentar os protestos dos moradores da região palestina contra o bloqueio, originando o documentário “5 Broken Cameras” (cinco câmeras quebradas).

A obra é narrada em tom autobiográfico por Burnat e funciona como um lembrete de que, por trás dos enfrentamentos entre Israel e Palestina, existe o cotidiano de pessoas afetadas pelos conflitos.

Codirigido pelo cineasta israelense Guy Davidi em parceria com Burnat, o filme se situa entre o diário visual e a crônica de protesto. Vencedor de melhor direção em documentário no festival de Sundance em 2012, ele concorreu ao Oscar deste ano.

O israelense Guy e o palestino Emad: a dupla de “5 broken cameras” incomoda

Foto: Damian Dovarganes/Associated Press

“A escolha de contar uma história familiar ao mesmo tempo em que se registra um movimento pacífico são algumas das razões do sucesso do filme. O resultado é uma incrível viagem emocional para quem está aberto a experimentar”, explica Davidi.

Mesmo perdendo a disputa, o filme protagonizou um estranho episódio antes do Oscar. Ao chegar a Los Angeles, Burnat foi detido por cerca de 40 minutos na imigração. Segundo ele, oficiais queriam que ele provasse sua candidatura à premiação.

Em Israel, o vínculo de um palestino com um israelense não foi bem recebido. “Não sofri uma retaliação oficial, mas algumas organizações enviaram à Academia pedidos de cancelamento da participação no Oscar, além da ameaça de um processo por incitamentos contra militares israelenses”, conta Davidi.

Nas filmagens, Burnat teve seus equipamentos quebrados por cinco vezes. Bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e até um acidente de trator não o impediram de seguir sua “terapia”, como descreve no filme.

ONGs francesas ajudaram-no a comprar câmeras novas.

Mesmo que a maioria das manifestações exibidas no documentário sejam pacíficas, o clima de guerra está imerso na intimidade de Burnat. Entre as primeiras palavras de seu filho Gibreel, estão “cartucho” e “exército”.

Curiosa é a presença de referências brasileiras no filme. Bandeiras pela casa de Burnat, um adesivo em uma de suas câmeras e um manifestante com a camisa do Palmeiras explicam-se por Soraya, esposa do protagonista nascida no Brasil.

“5 Broken Cameras” é o relato lírico do conflito pelos olhos de um palestino que ganhou forma e voz na associação com um israelense.

“O desafio foi criar discussão baseada na responsabilidade e no amor. Valores criam mudança”, finaliza Davidi.

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“5 broken cameras” será exibido na Semana do Apartheid Israelense, que acontece na USP a partir de hoje. Para mais informações é só clicar aqui

Comentários

  1. Eu ainda nao vi o filme. Mas me parece que este eh o auge de uma onda de ensaios fotograficos, videos e documentarios que enfocam o cotidiando pessoal do autor. Cada vez mais vejo em tudo que eh suporte e lugar ensaios e videos sobre a vida do autor, da sua avo, mae, filha, pai, mulher, namorado etc…. Ontem mesmo vi esse ensaio (mais tocante do que visualmente interessante) no Lens. http://lens.blogs.nytimes.com/2013/03/08/one-cat-three-lives/.
    Esses diarios visuais vieram pra ficar?

    1. Caio, vi também a história do gatinho ontem, no Lens. O que achou? O texto é bem legal, tem que abstrair que são fotos de bichano e se ligar na trajetória dele a partir do gato… Achei ousado o Lens publicar isso.

      1. Entao, a historia eh bonita – talvez, no final isso sirva para um ensaio ser bom. Mas este ensaio depende muito do texto, nao?
        Entretanto, confesso que me vi ali em algumas coisas. 🙂

        Eu fui atras desse cara, vi o site dele e tal, ele ja publicou varias coisas no lens.

        Mas voces acham que os diarios visuais vieram com forca, eh soh um momento, ou eu estou viajando e nao tem nada disso? 🙂

          1. Nossa, que fora! a discussao rolou semana passada e eu aqui abrindo de novo. Desculpe.
            Otimo post por sinal!

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