Arquivo do Conflito Moderno arquiteta circo caótico em exposição em Madri

DAIGO OLIVA

O edifício do centro cultural Fernán Gómez, em Madri, concentra três exposições desta 21ª edição do PHotoEspaña. Após percorrer a mostra coletiva Grande Final Mundial e o espaço dedicado ao camaronês Samuel Fosso, o espectador do festival será massacrado por uma enxurrada de imagens de “O Maior Espetáculo do Mundo”. A exposição traz centenas de registros do Arquivo do Conflito Moderno, coleção privada dedicada inicialmente à fotografias de guerras e de violência, mas que ampliou seu escopo, e hoje concentra diversos temas, confundindo a história em geral com a história da própria fotografia.

A mostra faz parte da carta branca concedida pela organização do festival a Cristina de Middel, responsável por selecionar curadores e/ou artistas de cinco exposições do evento. Vencedora do Prêmio Nacional de Fotografia da Espanha em 2017, De Middel convidou o britânico Kalev Erickson para organizar a mostra a partir do acervo do Arquivo do Conflito Moderno. A condição é que a curadoria gravitasse em torno do tema da carta branca –a relação entre jogo e fotografia.

Obcecado por animais, Erickson recorreu ao circo, universo que constantemente revisita devido ao interesse por bichos. “Quando Cristina me convidou, foi uma oportunidade de dar fluxo a essa obsessão, ao mesmo tempo que, por coincidência, nesta ano se completa o aniversário de 250 anos do circo moderno”, diz. Assim, registros de animais obrigados a participar de jogos cobriram as paredes do centro cultural, que também recebeu imagens de malabaristas, acrobatas e mágicos, organizados de maneira caótica no espaço expositivo a fim de reforçar o volume do arquivo e criar constelações de fotos.

Há, por exemplo, grupos de imagens dedicados a formas circulares, que remetem à origem da palavra circo e ao formato clássico das tendas. Outra parte é dedicada à dualidade entre os artistas e o público. “Um circo não funciona se não tiver essas duas peças”, afirma Erickson. “Se falta uma, a outra não tem sentido, e por isso precisava ressaltar a posição de que assiste ao espetáculo.” Já os palhaços foram colocados em um lugar mais escondido, para que aqueles com fobia aos bufões pudessem passar direto pela seção sem vê-los. O fio condutor que percorre toda a mostra é a dualidade entre real e imaginário, como a ideia de que homens podem voar –representada no circo pelo número do canhão. “No final, tudo tem a ver com as coisas espetaculares que imaginamos, alcançamos e desejamos, e que existem fora das tendas do circo, na vida real.”

Erickson trabalha há 11 anos no arquivo e, ainda assim, diz não ter visto nem metade da coleção. Tampouco arrisca dizer o tamanho do acervo. Em artigo publicado sobre o AMC (na sigla em inglês), em 2013, pela revista “Aperture”, o número do registros à época era de 4 milhões, com fotografias armazenadas em Londres, Beijing e Toronto. O Canadá é importante para o instituto, porque seu fundador, o empresário David Thomson, dono do grupo de mídia Thomson Reuters, é canadense. Discreto, pouco se sabe sobre as razões que o levam a financiar o arquivo, apenas que é interessado em fotografia vernacular. O gigantismo e a variedade de opções que o AMC oferece já serviu de base para diversos fotolivros. O mais conhecido deles é “Holy Bible”, da dupla Adam Broomberg e Oliver Chanarin, mas há outros, como “Illustrated People”, de Thomas Mailaender.

O curador conta que as imagens vêm das mais diferentes fontes. Pode ser tanto da compra de outras coleções privadas quanto de leilões ou garimpos em sites de compra online, como o eBay. Também calcula que cerca de 12 pessoas trabalhem no AMC em Londres –mesmo número de funcionários no Canadá–, além de outros 60 freelancers em todo o mundo. Se não crava o número de fotos presentes no acervo nem quantas pessoas trabalham no instituto, o britânico apenas sorri quando é questionado sobre o valor do Arquivo do Conflito Moderno. “Não tenho ideia. Eu diria que não tem preço.”

O jornalista viajou a convite do festival PHotoEspaña.

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